Balão em Dubai

 

Tivesse eu habilidade na informática, colocaria aqui como fundo musical, aquela música do Dorival Caimi…  Você já foi à Bahia? Então vá. Pois é, simulando estar cantando é como deve ser lido este título. Você já foi a um balão? Então NÃO vá!

Resgatando na memória o filme -“Viagem ao Mundo em 80 dias”, onde Cantinflas (quanto tempo) e David Niven fazem a tal viagem num lindo balão, e satisfazendo a vontade do meu santo marido, lá fui sentir as delícias deste pitoresco passeio em Dubai.

Só pra refrescar a memória, os atores, com a maior facilidade do mundo, subiam e desciam do balão e, entre uma e outra parada, sobrevoavam docemente o solo, quase conseguindo encostar as mãos nele, durante o trajeto.

Era ainda escuro, quando assistimos o lindo balão ser inflado, pois a proposta era ver o amanhecer de cima. Que graça ver o sol despontar por outro ângulo… A terrível diferença entre os aventureiros irreais e nós, começou de cara na entrada do tal balão.

Foto: Divulgação

Sob a ordem do “comandante” que com certeza foi treinado pela Gestapo, fomos empurrados por seus ajudantes de terra para cima do balão que já se movimentava, é claro, não posso reclamar da minha agilidade, mas o entusiasta do meu santo marido colocou a primeira perna, enquanto a outra insistia em rastejar pelas areias, passando a seguir a ficar pendurada, pois a saída do agradável passeio já fora dada. Não fosse a ajuda dos que já estavam dentro do lindo balão… O passeio teria terminado rapidamente ali mesmo, (que pena que não foi o que aconteceu).

Como não é habitual uma pessoa normal entrar num troço deste, explico que numa grande cesta, 10 pessoas ficam em pé usufruindo as delícias de um berço balançando no ar. O meio de transporte em que estávamos era movidos a fogo e obviamente os respingos de chama deram o primeiro alerta do que viria pela frente. Aliás, com o vento, ser chamuscada foi uma constante, mas passou para segundo plano rapidinho.

O “comandante” assumiu seu cargo e no início, bem no início, foi lindo ver o movimentos dos camelos, camelinhos e “camelões” em seu habitat natural. Mas a tranqüilidade do vôo (tirando as chamuscadas) durou segundos, pois a praga começou a subir, a subir, a subir e o berço… balançando a mil metros de altura, para mim passou a ser objeto de pavor.

As pragas dos outros passageiros insistiam em se movimentar para pegarem melhores ângulos a serem fotografados. Em cada mudada de posição, meu coração parecia que iria sair pela boca de tanto medo.

Depois que o troço superou o razoável, onde uma queda poderia ocasionar a quebra dos quatro membros apenas, não consegui tirar os olhos do piso. Que paisagem, que por do sol, que nada… Nada me interessava, a não ser a imediata descida. Além dos chamuscos reais, meu marido sentia que saiam faíscas de ódio dos meus olhos, quando eu, no uso máximo da coragem, ousava levantar UM de cada vez deles, pois estava naquela situação mais imbecil por sua causa.

O pesadelo para mim durou uma eternidade, pois ainda teve o lance do comandante desandar a tirar foto, abandonando o comando, conosco a mais de mil metros do solo.

Naquela mesma altura, o chefe da Gestapo determinou que todos nós ensaiássemos a posição para a descida. Aí então entreguei a minha alma a Deus e a única coisa que me tirava do torpor, era pensar que em breve estaria reencontrando meus pais, meus avôs, um monte de amigos que deveriam estar ansiosos por notícias do mundo dos vivos.

O treinamento em terra foi moleza de ser feito, pois bastava sair da posição ereta, apoiar-me em pé mesmo na cesta, os braços e segurar uma corda que estava na frente de cada um. Mas, a mais de mil metros de altura? Se eu, quando levantei só um olho, pois o outro deixei fechado, já senti que havia provocado um ligeiro balanço… imagine 10 pessoas trocando de posição ao mesmo tempo! Aí então… já torcia pra pular no colo da minha falecida mãe e acabar de uma vez com aquele suplício. Nem sei a cor que estava o tal sol quando começamos a descer.

As batidas do meu coração desaceleraram, à medida que a areia tornava-se mais próxima.

Quando senti que a festa celestial não seria ainda naquele dia, cheguei até a encostar meu cotovelo na cesta, voltar a ver os camelos, camelinhos e “camelões”, quando o delicado comandante num berro, ordenou que eu agarrasse a corda com as duas mãos.

Voltando ao célebre filme, não entendi o porquê da ordem, pois o balão do “Cantinflas” descia suave e calmamente até a parada final.

Entre a primeira tocada no solo e o fim do pesadelo, nossas costas foram quicando no chão umas 30 vezes, pois a cesta não desce em pé, mas virada.

A estas alturas, quando o máximo que poderia acontecer era eu quebrar as duas pernas… senti numa pequena montanha russa de um parque infantil, de tão segura.

Meu marido, em compensação, ficou em parafuso e de tanto apertar a droga da corda, saiu com as mãos sangrando.

Fui motivo de altas gozações por parte dele, por menos de 25 horas, pois no dia seguinte, vimos pela televisão que um balão da mesma empresa que o nosso, saindo no dia seguinte do mesmo local, simplesmente caiu e quatro dos 10 passageiros morreram sufocados no “areão” e os outros se encontravam hospitalizados.

Agora, sem música…

QUEM NÃO FOI AO BALÃO… NÃO VÁ!

Foto: Divulgação

Comentários 4

  • Maria Eugenia Coelho da Gama Cerqueira24/05/2013 em 00:44

    Depois do acidente que saiu em todos os jornais onde morreram as “idosas” brasileiras, não vou nem amarrada…

  • Maria Helena Pasqualucci13/08/2012 em 19:15

    Ana Maria
    Foi um grande prazer lhe conhecer sábado no casamento, pena que tenha ficado por tão pouco tempo.Aceitei sua sugestão e entrei no seu blog e foi com grata surpresa que li seu relato sobre sua viagem de balão,adorei seu estilo leve e delicioso de escrever.Vou recomendá-lo às minhas amigas,tenho certeza que irão adorar.Tenha uma excelente semana.Forte abraço.

    • Ana Boucinhas03/09/2012 em 20:54

      Pena mesmo querida termos nos visto tão rapidinho no casamento.Logo depois viajei e estou voltando agora on line.Aguarde os textos que vou postar sobre o que está rolando em Paris. super beijos

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