Vera Lucas

 

AV – Com seu livro “Toda Mulher tem 7 Homens”, você vem bombando e muitas mulheres comentam que alguém está com 14 homens… Assim, de onde surgiu a ideia de que, na verdade, existe  esta fartura de homens?    

VL – Dos meus amigos homens. Eles reclamam que “as mulheres não querem nada sério”. Por isso, ou estão sozinhos ou cada dia ficam com uma. Então eu acho que o problema não é a falta de homens. A dificuldade está em encontrar e prestar atenção na pessoa certa. Às vezes ela está ao nosso lado e não percebemos. Como aquele homem no metrô, usando um tablet.

AV – Você poderia falar um pouco sobre o seu livro?

VL – É um romance engraçado, com pitadas de ironia, leve. De tristes já bastam as notícias que nós, jornalistas, temos que dar. Ninguém deve esperar também grandes teorias ou filosofias – acho isso muito chato. A minha protagonista, Patrícia, é uma mulher moderna, tem personalidade forte, é desastrada, impulsiva, não tolera machistas, atrapalhada amorosamente, acredita nos homens e acha ser capaz de mudá-los, (a história de beijar um sapo e ele virar príncipe). Sem namorado, enfrentando problemas profissionais e uma crise existencial, ela crê que um homem seria a solução. Assim, como num passe de mágica mesmo… Lembrando de um conselho da avó, Patrícia resolve conferir se ela estava certa: “Querida, os homens do nosso passado podem ser admiráveis no presente e magníficos no futuro”, Patrícia decide ir atrás dos homens que considera terem sido os mais importantes em sua vida. Faz uma listinha e constata que somam sete, número que ela acredita ser cabalístico. A partir daí, Patrícia “caça” um por um, se envolvendo em situações caóticas, hilárias, constrangedoras e até armando alguns barracos.

AV – Como está sendo a aceitação do seu divertido livro no universo feminino?

VL – Ótima. As leitoras me mandam recados, opiniões e até pedem conselhos através do meu blog – como se, no meu caos interior, eu tivesse capacidade para palpitar certo na vida de alguém… Se isso fosse possível, eu estaria rica. Bem, todas, em algum momento, se identificaram com a Patrícia. A coisa é tão forte que, dando uma entrevista ao vivo para uma rádio, o apresentador me chamou de Patrícia.

AV – Quanto aos homens, você já tem alguma avaliação sobre o impacto que o livro provoca neles?

VL – Já, no início foi catastrófico. Por causa do título, eles não compram o livro. Passei uma tarde em uma livraria, sem me identificar, tentando convencer a classe masculina a levar “Toda Mulher tem 7 Homens”. Recebi sempre duas justificativas para o NÃO categórico. A primeira, inevitavelmente,  era “Isso não é coisa de macho”. Quando eu sugeria que comprasse para a namorada, a irmã, a resposta era “Não, vai que esse livro coloca minhocas na cabeça dela”. Uma piada, né? Mas as mulheres compram e acabam emprestando para os amigos, irmãos, namorados “só para eles darem uma olhadinha”. Assim, aos poucos, eles estão vendo que o livro é uma ótima forma de se conhecer um pouco da alma feminina. Na última palestra que dei, quatro homens estavam na platéia. Parece pouco, mas para mim foi um recorde de audiência.

AV – Como no “Complexo de Cinderela”, você tenta demonstrar que a maioria das mulheres espera conhecer o príncipe encantado, casar e ser feliz para sempre. Só que você usa outro conto de fadas, colocando à disposição da leitora a personalidade de cada um dos sete anões da Branca de Neve. Por quê?

VL – Se você analisar com cuidado vai concluir que os sete anões englobam as principais características dos homens. Experimenta, cada anão lembra alguém que você conhece na vida real. Walt Disney não os criou por acaso, ele era muito inteligente e, na sua época, já passava conceitos importantes nas entrelinhas. Não considero “Branca de Neve e os Sete Anões” uma história infantil. As crianças é que ainda não entendem as mensagens subliminares. Eu não acredito que a Branca de Neve teve casa e comida de graça (rs). Espero que a família dela não me processe por causa disso.

AV – Mas os anões eram feios…

VL – Bem, Walt Disney também foi uma criança feia. Acho que ele quis mostrar o tradicional ditado popular: “A aparência não importa e sim o interior da pessoa”. Lembrei da piada de que quem gosta de beleza interior é o decorador… Voltando ao tema, os homens da Patrícia não são necessariamente feios ou bonitos, nem pensei nisso. A personalidade de cada um é que é idêntica a de cada anão.

AV – Outros símbolos da famosa história da Branca de Neve têm algum significado no seu livro?

VL – Tem, mas eu não posso contar para não estragar a surpresa. E para o meu editor não cancelar o meu contrato.

AV – Em sua opinião, o seu livro limita-se às mulheres jovens ou aplica-se também às mulheres mais maduras?

VL – As adolescentes, por terem pouca experiência de vida, acham o livro engraçado, mas não entendem as nuances, não se identificam com a Patrícia. Percebo que o livro começa a conquistar as leitoras com mais de 20 anos. A partir daí, acho que quanto mais madura for a mulher, mais ela vai gostar da história. Vou contar uma coisa. Eu brinco muito e faço perguntas durante as minhas palestras. No final de uma delas, uma senhora com cerca de 80 anos me chamou particularmente. Rindo, ela falou: “Fiquei com vergonha de me expor, mas, sabe, quando me apaixonei pelo meu marido, nenhuma mãe sonhava com ele para genro”. Tem coisa mais linda? E para matar a sua curiosidade, sim, ela é muito feliz até hoje com o seu companheiro.

AV – Seu livro “Toda Mulher tem 7 Homens”, narrado na primeira pessoa, reflete experiências pessoais suas Vera?

VL – Sim, tem um pouquinho de mim, dos meus amigos, de pedaços de  histórias que escuto… Sou jornalista e os meus ouvidos são apurados. Posso estar na praia, no ônibus, em qualquer lugar. Se duas pessoas começarem a contar algo interessante, vou prestar atenção na conversa. Eu sei que é falta de educação, mas é onde colho material para o que escrevo. Lembrei de outra coisa engraçada agora. Quando o meu ex-marido soube pela imprensa que eu ia lançar esse livro, me telefonou preocupado: “Você não contou nada  sobre mim, né?”. E ele não foi o único… Acho que pensaram que eu estava lançando algo como “Vera Lucas, a vingança”. (rs) Nada a ver. Eu tenho uma imaginação muito fértil.

AV – Quando você percebeu que tinha talento para escrever?

VL – No exato momento em que descobri que tinha horror a decorar regras gramaticais, lá pelo final do antigo curso primário (rs). Eu não entendia nada daquelas histórias de oração coordenada assindética, sujeito oculto por elipse, verbo transitivo circunstancial… Aliás, não entendo até hoje. Mas eu adorava ler, me alfabetizei sozinha (não sei como) lendo revistas em quadrinhos e, por isso, tinha grande facilidade para escrever. Essa passou a ser a minha tábua de salvação nas provas de português. Eu arrebentava nas redações e conseguia uns pontinhos na parte gramatical. Era assim que eu passava de ano. Se algum antigo professor meu estiver lendo isso vai ficar de cabelo em pé. Perdão, mestre.

AV – Esse é o seu quarto livro…

VL – É os outros três foram sobre Jornalismo: “Comunicação Comunitária” (2009), “Técnicas de Redação: Mídia Eletrônica” (2009) e “Introdução ao Jornalismo” (2007). Aí, depois de ter escrito tantas crônicas, tantas matérias, livros acadêmicos, resolvi que queria escrever um romance, com princípio, meio, fim e tudo mais o que tivesse direito.

AV – Como você lidou com seu impagável humor e a responsabilidade de escrever este delicioso romance?

VL – Quando eu era criança e adolescente, fui vítima de bullying. Brincadeirinha… é que eu ficava uma fera quando as pessoas diziam que eu era engraçada. Eu achava que me consideravam uma piada, que não me levavam a sério. Depois entendi que não era nada disso e que eu deveria usar o meu jeito divertido a meu favor. Ótimo também para disfarçar a minha timidez… Assim, nunca pensei em escrever um romance trágico, paranormal, de suspense… Seria engraçado e pronto. Então, virei a maluca do prédio. Só consigo escrever quando estou inspirada e, nessa fase, a minha criatividade adorava aparecer de madrugada. Eu levantava da cama e ia digitar no computador. Imagina a cena. O maior silêncio e o barulho tec-tec-tec-tec saindo do meu apartamento.

AV – Você ficou nervosa conforme o dia do lançamento se aproximava?

VL – Não, fiquei histérica. Infernizei a vida do meu editor, da minha irmã, da minha prima portuguesa que estava hospedada na minha casa, dos meus amigos, nem eu me aguentava mais. Desculpe gente.

AV – E na noite de autógrafos?

VL – Acho que eu não estava lá… Lembro vagamente de ser fotografada, de escrever em alguns livros, de falar umas besteiras… E eu não bebo!

AV – Depois passou, não é?

VL – Não. Aí entrei na neurose da primeira crítica que sairia. Tive medo de ter jogado toda a minha vida profissional no lixo, de ser apedrejada na rua, de passar vergonha. Graças a Deus a crítica foi muito positiva.

AV – Existem outros projetos literários para frente?

VL – Terminei de escrever uma biografia. A família do entrevistado decidiu lançá-la apenas para um grupo fechado de parentes e amigos. E estou na metade de um livro reportagem que não posso ainda contar o tema. Mas já colhi depoimentos de umas duzentas pessoas. Com a autorização delas (rs).

AV – Não parecem livros de humor…

VL – É, esses dois não são. Mas pode ser que hoje de madrugada eu acorde e comece a fazer tec-tec-tec-tec no meu computador e volte a ser a maluca do edifício.

 

 

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