Testando seus sentidos

por Maria Eugenia Cerqueira

Em minha recente viagem a Londres (para mais uma maratona), por sugestão do meu filho que já tinha lá estado, fui jantar num restaurante inusitado: o “Dans Le Noir”. A saber: existem dois estabelecimentos com propostas idênticas, do mesmo proprietário, um em Paris e outro na capital inglesa. O lance é o seguinte: você entra numa sala de recepção, na qual lhe é apresentado um cardápio com quatro opções de comida: carnes, peixes, vegetariano ou à escolha do chef. Optei pelo menu de carnes e um vinho tinto eleito pelo sommelier. A seguir, o cliente é convidado a guardar todos os seus pertences em armários dispostos numa das paredes do recinto, inclusive e porque não dizer, principalmente os celulares.

Uma garçonete totalmente cega lhe é apresentada – aquela que irá servir-lhe a refeição. Ela pede que coloque a mão em seu ombro e adentra um salão absolutamente escuro – breu total. Ela indica onde está sua cadeira e depois onde estão dispostos talheres, prato, copos e jarra de água. A mesa é comunitária, pois ouvem-se sons de conversas à volta e à frente.

Servir-se de água é o primeiro passo: para não ultrapassar a borda do copo, coloquei meu indicador um pouco abaixo do limite e deu certo. Servido o prato principal, concentrei-me em tentar descobrir pelo aroma e gosto, o que estava comendo. Presumi tratar-se de filet mignon, pela textura macia. Os acompanhamentos foram um desafio à parte. Cenoura? Batata? Um bouquet de beterraba, como ter certeza? A carne estava já em pedaços que permitiam ser comidos sem necessidade de corte. Eu usava os talheres para centralizar a comida e dispô-la sobre o garfo. Acredito não ter derrubado nada e não usei meus dedos pois odeio comer com as mãos.  Servi-me do vinho, aliás delicioso, do mesmo modo que fizera com a água.

Retirado o prato, foi trazida a sobremesa. Percebi que ela estava dividida em duas partes: uma delas consistia em sorvete sobre uma base crocante, cujo sabor lembrou-me frutas vermelhas e chocolate. Ao lado, um tipo de cheesecake – foi o que presumi. De qualquer modo, tudo muito saboroso, mas… um mistério.

Terminado o jantar, voltamos ao salão onde deixara minhas coisas – incrível o impacto da readaptação à luz e à visão.

O garçon mostra então fotos e descrição de tudo que foi servido – grandes surpresas. O filet mignon era na realidade carne de vitela, o sabor de beterraba vinha de um pequenino ramo de folhas deste legume. Acertei quanto à cenoura mas não havia batatas! O sabor crocante de chocolate eram castanhas picadas. O cheesecake estava mais para mascarpone e o sorvete efetivamente feito com frutas vermelhas – bingo! Concluí que desenvolvi muito pouco os sentidos de olfato e sabor, com lastro na visão. Como me senti abençoada pelo fato de ser capaz de enxergar quando há tantos sem luz! Foi uma experiência incrível que recomendo. Visitem o site do restaurante www.london.danslenoir.com e se tiverem um tempinho, reservem-no para viver uma experiência gastronômica incrível!

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