Suzana Martins Fialho

 

Suzana  Martins Fialho nasceu no Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1946, numa família em que cultura e música eram a base da educação dos filhos, três ao todo. O pai, engenheiro e militar de carreira, exerceu suas funções durante um período fora do país, o que fez com que a filha morasse nos Estados Unidos, aprimorando seu aprendizado da língua inglesa.

Do tempo na América, Suzana argumenta que sempre enriquece a pessoa com os aspectos positivos das novidades, do contato com outras culturas, seus hábitos e costumes. Se calhar da criança já saber falar o idioma do novo país, a adaptação será mais fácil e nem chegará a representar um aspecto negativo na mudança, o que foi o seu caso.

Talvez a volta às origens traga algum problema, no sentido da defasagem de ensino e de se ter que construir novas amizades, mas que não representou, no caso, nenhum problema já que foi logo aceita no curso de admissão do Colégio Notre Dame de Sion, onde sempre foi aluna exemplar até formar-se no Clássico da época. Neste meio tempo, estudou francês e aprimorou ainda mais seus conhecimentos de inglês, na Alliance Française e Cultura Inglesa, aprovada no Examen de Nancy e no Proficiency. Optou por cursar Economia na PUC do Rio, em cuja instituição também se graduou em Didática e Tradução de Inglês.

Já formada, contraiu núpcias com Mauro Podcameni, engenheiro pelo IME. O casamento foi a finalização de uma sequência de fatos que englobou um encontro, um período de namoro longo, de quase cinco anos, com um intervalo de 10 meses e a intuição de que aquela relação de amor seria duradoura. Apesar de não ser uma pessoa religiosa, a idéia de abandonar a própria religião, católica, para assumir a do marido, judaica, não lhe era confortável e como não houve nenhuma imposição da parte da família do noivo, não houve conflito.

O casal acertou alguns pontos, logo de início: a religião que os filhos seguiriam (a escolha seria deles), que tipo de colégio frequentariam (não religioso), e abriram-se para qualquer celebração, de parte a parte. Este método foi tão perfeito que perdurou sem problemas até os dias de hoje.

Quando as filhas nasceram, a idéia de criá-las à distância era-lhe inaceitável e Suzana abriu mão da realização profissional, a favor do que lhe parecia mais certo. Afirma que a grande força motriz de sua vida foi participar do crescimento e desenvolvimento de Letícia e Beatriz, a primeira engenheira como o pai e a segunda, advogada.

O advento e disseminação dos computadores  permitiu-lhe incluir em suas atividades a de tradutora, passando a trabalhar em casa para editoras várias. “Filhos criados, trabalhos dobrados” já diz o ditado e, com a chegada dos netos, transferiu sua paixão por crianças dedicando-se à geração seguinte.

Ler livros e traduzi-los passou a ser profissão e, em conseqüência, nos momentos de lazer dá preferência à literatura leve, com texto e história sem grandes profundidades,  que devora por puro prazer. “Algo que não exija muito raciocínio após um dia cheio de atividades pueris!” diz jocosamente.

Como Amante da Vida, Suzana acha que a melhor idade liberou-a mentalmente, deixando de lado preocupações de menos importância. O corpo pesa mais; em contrapartida, o espírito fica mais leve, argumenta com humor.

Como opção de lazer, além dos netos, é claro, o casal viaja pelo mundo afora, hobby partilhado por ambos, sempre que sobra tempo.

É do colégio, meu conhecimento e amizade com a entrevistada. Deleitava-me ouvindo seus pais tocando, a mãe, medalha de ouro em piano, o pai acompanhando-a tocando serrote (isso mesmo!), que soava, pra mim, como um violino espetacular.  Alguns acham que o serrote assemelha-se à voz humana feminina. As duas opiniões coincidem num ponto: é um som lindo!

A música clássica, segundo seu relato, a entristece pela memória e saudade dos pais, que já partiram. Hoje em dia, escuta mais “A Galinha Pintadinha” do que qualquer outra coisa – só trilhas infantis… A história se repete.

Eu era sempre bem-vinda à mesa na casa da Suzana, pois os três irmãos disputavam os ovos fritos, que eu odiava, não sendo, portanto, concorrente àquela “delícia”. A obsessão levava a crer que os ovos do mundo iam se acabar… Dona Célia e a empregada tinham realmente que controlar o fanatismo da tropa senão não havia ovo que chegasse! A minha cota era partilhada – para meu alívio.

Outra reminiscência inolvidável: Suzana levava, de vez em quando, como lanche para o colégio, um bolo de chocolate com cobertura de marshmallow que todo mundo adorava e ficava de olho para eventuais compartilhamentos e sobras. Certa feita, uma colega arrebatou-lhe das mãos o papel laminado do invólucro, que passou a lamber alegre e freneticamente, diante do olhar atônito da Suzana – é que ela já tinha feito isso, minutos antes do “roubo”. A história virou piada nojenta entre as amigas. Argh…

Em nada me surpreendeu sua opção de Suzana deixando de lado a carreira em prol da criação das filhas. Quando passeávamos, eu sempre ficava admirando os cachorros e bichos que passavam enquanto a Suzana demonstrava já seu instinto maternal embasbacando-se com os bebês pelo caminho.

Sempre achei que a Suzana deveria ter estudado ciência política pela maneira como geriu a vida: o marido adorava e continua gostando de esportes, corrida, ciclismo e tudo do gênero, o que positivamente nunca fez parte da programação dela. No entanto, conseguiu administrar as divergências e, como o amor sempre vence a diversidade de gostos nunca desgastou a relação. Isso se chama política de boa vizinhança e deveria servir de exemplo a quem leva as coisas a ferro e fogo, para no fim muitas vezes, arrepender-se.

O privilégio da amizade não se desfez apesar de morarmos cada qual em um Estado. Continuamos a “conviver” por telefone e pela internet todos esses últimos trinta anos, trocando figurinhas sobre sapatos, blusas, vestidos, jóias, filhos, netos, maridos e companheiros. Não vou ao Rio sem que um encontro seja programado nem que seja só para bater perna e olhar vitrines. Faz parte do itinerário, da ligação de raiz que o tempo só fez fortalecer.

Pedi-lhe um epitáfio, como aos demais entrevistados. Suzana ponderou: “Lembre-se: pode ser apenas uma fase, vai passar…” Sábias palavras.

Foto: Divulgação

Comentários 5

  • Pedro Podcameni da Costa Lima23/07/2014 em 15:02

    Oi,eu sou o neto mais velho da Suzana,o Pedro. Acabei descobrindo essa historia porque achei a foto final no google images!
    Eu achei a historia muito legal porque tem coisas que eu nunca soube sobre os meus avos!

  • Ana Ariosa13/05/2013 em 01:00

    Ai que saudades da minha Tia Suzana e do meu Tio Mauro!!Beijo enorme em vocês e na Bibia

  • Maria Eugenia Ramos12/01/2013 em 20:41

    Conheço a Suzana desde que entrou no colégio. De cara tive muita empatia. Muito boa e positiva entrevista . Optou pela família sem se arrepender da escolha. Foi tb gostoso lembrar da D Celia e Dr Mario. Tão especiais que foram meus padrinhos de casamento. Adorei

  • MARIA LUCIA MOURÃO11/01/2013 em 19:29

    Parabéns, Suzana pela alegria de viver e de compartilhar a vida com a família, já que esta é uma das nossas maiores riquezas e alegrias. Adorei a entrevista, pois retrata muito bem a personalidade de nossa amiga. Maria Lucia Mourão

  • Anna11/01/2013 em 19:26

    ADOREI,-partilhar com esta maravilhosa família oquen tão bem conhecemos. Anna

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