Segredos nas telas

 

SEGREDOS POR TRÁS DAS TELAS DE GUIGNARD

Novos exames de laboratório revelam técnicas artesanais e as pinceladas certeiras com as quais Guignard pintou suas oníricas paisagens de Minas Gerais.

Um dos expoentes da pintura modernista brasileira, Alberto da Veiga Guignard nunca teve um ateliê. Vivia na penúria, revezando-se entre pensões baratas e a casa de amigos e até trocando pintura por comida. Certa vez, pediu um preço tão baixo por quadro que o comprador não conteve o ar de espanto. Guignard então dobrou o lance e remendou: “Tinha me esquecido de incluir a moldura na conta”.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Em meio às dificuldades financeiras, ele produziu uma obra de notável apuro técnico, que sobressai pela delicadeza dos traços e pela pureza de tons com os quais construía suas paisagens mineiras sempre envoltas em uma atmosfera de sonhos.

Guignard, é o tema de um trabalho inédito no Brasil, que, por meio de análises químicas e físicas, começa a dissecar uma a uma suas telas e as finíssimas camadas escondidas por trás delas. Com um raio X e luz infravermelha, por exemplo, ficou claro que Guignard pouco remendava ou retocava suas pinturas, produzindo longas linhas de uma vez só, sem interrupções nem sinal de indecisão. Movia-se por tamanha segurança que, em seus desenhos, os traços chegavam a formar vincos no papel, como mostraram as microfotografias da superfície.

Foto: Divulgação

Nem mesmo o alcoolismo – de cujas complicações morreria em 1962, aos 66 anos – era um obstáculo para suas pinceladas certeiras. A investigação científica em obras de arte é comum na Europa e Estados Unidos, tendo ajudado a desvendar segredos por trás de quadros de mestres.

Para fazer a análise de 62 pinturas e desenhos de Guignard, cientistas do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais, fizeram uso de técnicas e equipamentos variados: além do raio X, luzes infravermelha e ultravioleta e testes químicos em amostras removidas da pintura original. “O estudo reforça que Guignard era um virtuose dos pincéis e um grande conhecedor das técnicas, como poucos de seus contemporâneos”, dia a restauradora Ana Maria Ruegger, coordenadora da pesquisa ao lado da química Claudina Moresi.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Os fragmentos extraídos de suas telas, examinados em microscópio, mostram que Guignard preferia não pintar sobre tela branca, mas cobri-la antes com uma tinta acinzentada – técnica conhecida como imprimatura, usada no Renascentismo para garantir maior unidade e, ao mesmo tempo, contraste entre as cores. O pintor juntava resina às tintas, hábito disseminado na Holanda do século XVII, e usava a mistura para produzir camadas finíssimas de cores diferentes, uma sobre a outra.

Guignard, também costumava chegar a seus próprios tons a partir de cores primárias – seu apuro técnico nesse processo possibilitava as límpidas nuances que lhe são característica. O pintor passou as duas décadas finais de sua vida em Minas Gerais, suas obras foram valorizadas pelo mercado de arte depois de todos os outros modernos, seus quadros não revelam, em absoluto, o lado mais sombrio (vividos por episódios trágicos ao longo de sua vida) do homem que se realizou por meio dos pincéis.

Foto: Divulgação

 

Por Marcelo Bortoloti

 

Adicionar comentário