Santo Sepulcro

 

Quem já esteve no Santo Sepulcro, conhece o procedimento para a sua visitação. No grande pátio da igreja do mesmo nome, hordas de turistas saem dos lotados ônibus e postam-se direto na enorme fila de entrada.

Considerando-se a rapidez com que esta fila anda pressupõe que pessoas entram em grupo no local do Santo Sepulcro, batem uma única foto e retiram-se em seguida. As pessoas normais, enquanto esperam chegar a sua vez, conversam entre si, comentam sobre a arquitetura externa, observam a diversidade de etnias ali presente.

Foto interna do Santo Sepulcro

Já uma pessoa como eu, que passou os 12 primeiros anos de sua formação estudantil em colégio de freiras, onde aulas de religião eram ministradas diariamente, a emoção pega pesado. À medida que a fila caminha, minha idade cronológica ia diminuindo, os vizinhos turistas se tornando transparentes e só as batidas do coração iam se acelerando. Ao avistar a enorme porta de entrada que me levaria ao túmulo de Jesus, já estava com 12 anos, cheia de fitas de filha de Maria penduradas no pescoço. Quando finalmente chegara a vez do meu grupo entrar, aí então já era uma menininha de 10 anos vestida de anjo, o mesmo traje solene que vesti no XXXIII Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro. Eis que encabeçando um solene grupo de bispos ortodoxos, que mereciam o direito de furar a fila, aparece um civil com ar de manda chuva e bloqueia a minha entrada.

A menininha de anjo, achando aqueles sisudos barbudos mero curiosos, teve um ataque de birra e deve ter falado em aramaico que não permitiria que ninguém passasse na sua frente. O semblante de espanto do organizador da visita dos senhores Bispos foi tão grande e respeitoso, que pareceu estar ele na frente de uma consanguínea de Jesus. Não só autorizou que apenas eu entrasse como deixou que eu permanecesse diante da tumba o tempo que pretendesse ficar.

Aí então a coisa complicou mais ainda, pois saiu o anjinho e incorporei Maria Madalena olhando admirada para a tumba vazia. Meu centrado marido, achando que eu estava abusando da deferência, me trouxe de volta ao mundo adulto, tirei uma foto, me levantei e saí.

Como tinha me rebelado em inglês, é óbvio que foi o constrangimento que aquela senhora estava ocasionando, o que promoveu a aparente deferência. Mas, a garotinha que habita em mim, insiste em achar que falou mesmo em aramaico, pois fica muito mais divertido e simbólico, afinal de contas, estava vivenciando o imaginário que povoou a sua infância… 

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Foto : Entrada da Basílica do Santo Sepulcro
Foto: Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém

 

Comentários 2

  • Cléa Pilnik12/04/2012 em 22:09

    Ana, eu sei que á vida com humor é outra coisa, mas também sei que você passou por uma grande experiência espiritual nesse seu momento de pseudo-rebeldia, pois você reinvindicou aquilo que você emocionalmente tinha direito. Afinal, não se vai a Israel todos os dias. É muito válido querer ser acolhida de forma especial. Bjs , Cléa

  • Marilena Fairbanks Barbosa10/04/2012 em 01:12

    O bom humor sempre presente em tudo o que a Ana Boucinhas faz realmente deixa todos ao redor “de bem com a vida”.
    Espero que sempre nos brinde com seis deliciosos textos .

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