Politicamente Correta!

 

Para começo de conversa, vou fazer uma confissão, estou cansada dessa expressão politicamente correta. Não bastasse a centésima reforma ortográfica, agora tenho que me preocupar com qual palavra que falo ou escrevo. Antes que vocês me apedrejem, deixo bem claro que sou contra quaisquer tipos de preconceito, ofensa, bullying e que as vítimas têm mais é que denunciar a agressão e botar na cadeia o culpado.

Entretanto, acho que o pessoal está exagerando. Na maioria das vezes, a injúria não está na palavra, mas no tom e na intenção com que foram empregados.

Foto: Divulgação

Dessa forma, muita calma nessa hora, gente!  O escritor Monteiro Lobato está  se revirando no túmulo de tanto desespero. Um pesquisador pediu, em 2010, a avaliação do MEC sobre o livro “Caçadas de Pedrinho. Em um dos trechos, a cozinheira do tradicional Sítio do Pica-pau Amarelo, Tia Anastácia,  é chamada de “macaca de carvão” pela adorável boneca de pano Emília.

O  Instituto  de Advocacia Racial concluiu que a obra é racista. Como é que é? O livro foi publicado na década de 30 e Monteiro Lobato desafiava os costumes da época. Enquanto os negros estavam na cozinha, Tia Anastácia estava na sala  falando, participando e opinando no momento histórico em que os negros não tinham voz. E o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, como se os ministros não tivessem nada mais  importante para fazer.

A coisa tá difícil e, por isso, vou dar algumas sugestões. No caso de Lobato, pinta a Tia Anastácia de branco, transforma a Emília em porcelana, dá um brasão para o Visconde de Sabugosa e chama o doutor Pitanguy para fazer uma rinoplastia na  Narizinho. Vai que ela é complexada por ter esse apelido, né?

Continuando na Literatura, “A Megera Domada”, de Shakespeare, vira “A educada que se apaixona pelo marido”, “O Alienista”, de Machado de Assis,  “O médico especializado em portadores de necessidades especiais mentais” e “A dama do lotação” se transforma em “A socialite do táxi”.

Outra ideia é trocar os nomes de alguns artistas. Que tal Branquinho da Beija Flor, Clara Gil, Luiz Maurício (Lulu é nome de cachorro e Santos só deve ser usado por religiosos), Faustinho, (ele emagreceu), Carlos Legumes (Ratinho ofende e massa engorda), e o Jô Soares vai ter que esquecer o badalado “Beijo do Gordo”.

Os jogadores Pato e Ganso também terão que ser registrados novamente. As aves são sagradas, devem viver em liberdade e não presas em um estádio de futebol correndo atrás de uma bola. E o Flamengo será obrigado a  mudar de  símbolo. Além de explorarem o trabalho do urubu, ele ainda torce pelo Vasco!  Para completar, cada brasileiro que falar mal a progenitora do juiz  pedirá perdão, ajoelhado no milho, à própria.

Em se tratando de música, vamos destruir “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Decididamete, “Aquilo sim que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / E quando me via contrariado dizia / Meu filho o que se há de fazer?”  é puro machismo. Tim Maia também cai fora com o clássico “Vale Tudo”, onde afirma  “Vale o que vier, vale o que quiser / Só não vale dançar homem com homem / Nem, mulher com mulher”.

Como não vale? Todos sabemos que o compositor era um homem extremamente preconceituoso e ainda cantava mal. Lembrei agora de “Faz Parte do meu Show”, de Cazuza. Recolham, recolham! “Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor / Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor.” Pega na escola? Está estimulando a pedofilia. Tem que apanhar a moça no curso de mestrado. E nada de botar o professor no meio para não afrontar a profissão.

O teatro é outro que anda pisando no tomate. “O Cretino”, de Alisson Diniz, se transforma em “O PHD” (pobre do rapaz!), “Será que Ele é? – Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser Uma Cinderela”, de Amauri Ernani, passa a ser chamada de “O Conto de Fadas do Casamento” (temos que aceitar todas as opções sexuais)   e “Minha Mãe é uma Peça”, de Paulo Gustavo, “Minha Tia está sempre com a razão” (não mexa com a mãe!).

Piada? Apenas serão autorizadas as que brincarem com o italiano Manoel, o argentino Giuseppe, o português Isaac e o judeu Maradona.

Enfim, essa é a minha humilde contribuição para todos os grupos politicamente corretos, apesar de continuar achando que essa expressão já virou uma nova forma de censura e se torna mais séria ainda quando se transforma em patrulha.

Foto: Divulgação

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