Physalis

 

Physalis – Um fenômeno de identidade.

Comi physalis pela primeira vez, faz um bom tempo, no restaurante de nouvelle cuisine italiana de Gualtiero Marchesi, em Milão. Vinha, ao final da refeição, banhada em chocolate e envolta em fumegante gelo seco. Na mesma viagem, encontrei, nas margens do Sena, pacotinhos de semente da fruta, apresentada como “cereja do Havaí”.

Plantada no sítio, em Bragança Paulista, depois de uns quatro meses lá estava a fruta, apoiada por espadeiras, e o espanto do caseiro: “- Ah, mas isso é joá-de-capote! Tá cheio por ai!” Me senti um perfeito pateta. E aos poucos fui me lembrando de que, quando menino, caminhava pelos campos com amigos mais “caipiras” do que eu que comiam os joás que encontravam – coisa repulsiva, pensava, imaginando que todos os joás fossem iguais ao joá bravo, semelhante a um jiló, que aprendi para nem chegar perto, por espinhento e venenoso; maldito fruto. Precisei ir à Europa para chegar ao interior da minha infância.

Saber ver, eis o primeiro ensinamento. E saber nomear, eis o segundo ensinamento. E sem saber nomear, quase nunca se vê.

Camapu ou joá-de-capote são nomes brasileiríssimos dessa fruta tão presente da Amazônia ao sul. Agora mesmo acabo de conhecer um livro do Ministério do Meio Ambiente (Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou Potencial. Plantas para o Futuro – Região Sul, Brasília: MMA, 2011) onde aparece a Physalis pubescens indicada como fruta comum da América do Norte até a Argentina.

Pergunto-me, então, por que o comércio insiste em apresentá-la como algo “internacional”, levando várias pessoas a acreditarem que se trata de fruto colombiano, como a pytaia peruana, se não me engano? Um grande produtor de flores e frutas, a Colômbia “nacionaliza” as espécies exóticas que cultiva e explora mundialmente.

A história mostra que a “nacionalidade” de um ingrediente depende mais da sua ampla aceitação popular do que de outra coisa. Vulgarmente, achamos que a manga e a jaca são brasileiríssimas, como a carambola. Physalis, enquanto for mero elemento decorativo da culinária com pretensões gastronômicas, valorizado inclusive por ser “importado”, nunca será camapu ou joá-de-capote.

Foto: Divulgação

 

 

Por Carlos Alberto Dória

Comentário 1

  • Ana Boucinhas19/01/2013 em 10:03

    Tambem fiquei super surpresa quando soube que o charmoso physalis tinha aos montes por aqui.Achava uma fruta sofisticada,pois sempre apresentada nas mesas envolvida em suas fôlhas envelhecidas de onde surgiam com todo o frescor,misteriosamente.
    Com certeza a ” roupagem” dá imponência ,daí pensarmos que não existia no Brasil.

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