Pelos bastidores do Opera Garnier

por Ana Boucinhas

Não fosse uma chuva inesperada, passaria batido por uma pequena fila de turistas na lateral do Opera Garnier. Os guarda-chuvas abertos eram convidativos para não me encharcar em dois tempos.

Enquanto era gentilmente protegida por uma senhora oriental, me deu um pouco de pena das pessoas que entrariam quase que de graça, só para apreciar a maravilhosa Opera de Paris.
A fila começou a andar para dentro com a mesma rapidez do temporal que vinha vindo do lado de fora… Paciência… Lá vou eu ter a chance ao menos de poder circular pelos esplendorosos espaços confortavelmente calçada e sem nenhuma expectativa de um espetáculo à frente.


O “tour ” foi relativamente longo, pois nenhum detalhe passava despercebido. Juntei-me ao coro dos turistas que pela primeira vez deslumbravam-se com a maravilha construída por Charles Garnier. Aliás, quando ganhou o concurso para o projeto do Opera, Garnier era um quase jovem arquiteto, tinha 35 anos e totalmente desconhecido.

Deve ter escapado para os encantados do grupo mas não para mim, que o majestoso prédio ocupa uma área de 11.000 metros quadrados e que 450 artistas podem ocupar ao mesmo tempo o seu palco. A turma ficava boquiaberta com a riqueza da decoração, com as maravilhosas colunas e estátuas de mármore, com o monte de superfícies folheadas a ouro e ao verem o imenso lustre central do salão principal que pesa mais de seis toneladas, foi um Deus nos acuda de tantos “uauuusss” !!!!!

Dei uma olhada numa das vidraças e vi que ainda chovia torrencialmente. Ainda bem, pois perderia a grande surpresa que viria a seguir…
Obediente, sob a ordem do guia, juntei-me ao grupo e ele nos levou a um espaço nunca visto por mim – os bastidores do Garnier !
Foi a minha vez de abrir silenciosamente, é claro, um grande “uaaau” !!!
Passar pelos camarins que hospedam artistas de grandeza infinita já me encheu de emoção ! Mas foi só o começo…

Seguindo os passos fantasmas, fomos encaminhados às enormes coxias. Cheguei a sentir o silêncio dos bailarinos em plena concentração, só atrapalhada talvez pelo suave farfalhar do encontro dos maravilhosos figurinos.

Minha boca abriu-se como a de um rinoceronte, quando atravessamos a porta para a entrada de elefantes ao palco, quando compusessem a decoração de uma ópera.

O tamanho do palco realmente impressiona. Mas olhar para o teto torna o piso totalmente desinteressante. É preciso a presença de técnicos em engenharia para serem manipuladas as trocentas cordas que descem ao palco os respectivos cenários para as apresentações. O máximo dos máximos ! Na parte traseira, metros e metros de linóleos enrolados estão prontos para cobrirem o palco. Basta apertar um botão e em dois tempos a tosca madeira é substituída.

O grand finale do tour fica para o tanque de água no subterrâneo do Opera. Aliás, espaço inspirador do extra famoso Fantasma da Ópera.
Como o terreno é muito pantanoso, para evitar que o excesso de água invada o teatro, mantiveram um grande tanque com um sistema de bombeamento, caso necessário.


Felizmente, a retirada da água durante os oito meses que antecederam o lançamento das fundações foram suficientes. Mas pelo sim pelo não, o tanque é protegido por uma escada trancada, por onde só descem com certa regularidade os bombeiros. Para dar certa graça ao repetitivo ato de controle, os fardados fizeram ali um viveiro de carpas.

Para finalizar minha surpreendente excursão, ainda tivemos a sorte de assistir confortavelmente sentados nas poltronas hiper vips, ao ensaio final da orquestra que iria se apresentar no dia.
Fica a dica aos que amam a Cidade Luz. Tremendo programa que graças à chuva fiquei conhecendo!

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