Ossos do Ofício

por Maria Eugenia Cerqueira

 

De uns tempos para cá, meu corpo começou um movimento de rebeldia, de total independência, que está duro de aguentar.
Primeiro, as juntas iniciaram um diálogo entre si, ininteligível mas perfeitamente audível: créc, créc. Sem ritmo nem constância, aleatoriamente. Tudo bem, não doendo, podem conversar à vontade que não me incomodo – até me fazem companhia.
Quem viu o Mágico de Oz, lembra por certo do homem de lata: “put some oil to me…”- também estou precisando de lubrificante nas juntas. Passo creme hidratante na pele por fora mas precisa ser por dentro!
Ocorre que os dedos das mãos também iniciaram um outro tipo de revolta. Os nódulos alargaram e o que antes era reto, hoje é torto. Preocupada, fui pesquisar e tirei umas radiografias. O técnico que acompanhava o exame, inquirido sobre a eventual existência de algum problema, limitou-se a afirmar que o que estava vendo era exatamente o esperado… para a minha idade. Palavras reconfortantes…
Foi quando o fêmur resolveu que seu encaixe com o resto do corpo precisava ser mudado e, aí sim, começou a doer. Pratico corrida de rua e efetivamente dependo das minhas pernas não somente para meu esporte como para meu equilíbrio mental. Tudo pode falhar menos pés e pernas.


Minha filha, que estudou medicina, indicou-me um colega ortopedista. As qualificações deste especialista ocupam 40% do cabeçalho do papel de receituário. Senti firmeza. Foram prescritos exames até da alma. Se alguém que lê este texto já fez ressonância magnética, sabe o controle que é preciso para ficar séculos dentro daquele tubo, escutando um baticumbum ziriguidum que entra dentro do cérebro. É dose para leão de três jubas porque de uma juba só, não aguenta. Pois cumpri o dever de casa direitinho, para concluir que está tudo desgastado. Gente também tem prazo de validade. Passada determinada data, independentemente do que se faça, as peças se desgastam. Você pode praticar esportes, comer e beber com parcimônia, tentar não se aborrecer com coisas superáveis e ainda assim, dia vai chegar em que o créc créc inicia uma música de fundo.
Tenho por norma que sempre a pessoa deve se distanciar de um problema para poder visualizá-lo de fora, com maior amplitude e impessoalidade. Foi o que fiz: e conclui que legalmente minhas artroses e artrites, desgastes e todas as mazelas dão-me o privilégio de isentar meu carro do IPVA, parar em vaga de deficiente e o que é a cereja do bolo: não preciso mais ser multada por esquecer-me do dia do rodízio! (Esqueci de mencionar que a memória também está deixando muito a desejar). Isto tudo legalmente, sem nenhuma maracutaia – já estou bendizendo o créc créc.


Não que o processo seja fácil – órgãos públicos no Brasil primam por dificultar basicamente tudo. O Detran, então, é hors concours no quesito de exigências e formalidades. Como todo idoso tem tempo ocioso, começarei minha via crucis no sentido de conseguir as benesses que a lei reserva para mim. Cheia de energia e esperança. Só espero conseguir chegar ao final de todo o processo antes que Jesus me convoque para o esquadrão celestial.


Fica a sugestão: envelhecer é chato mas a outra hipótese é desagradável e se a coisa ficar preta, tente tirar algum proveito de suas mazelas.
Créc, créc…

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