Ovos de pata para A Dama das Camélias

por Ana Boucinhas

Considerando ser minha genética nota mil, uma simples pneumonia fraquinha já me faz ficar prostrada como a célebre imagem da Dama das Camélias.

Nada a ver com a desregrada vida da personagem de Dumas, claro, mas só com os mimimis dela diante da doença. Então, já que me encontro incorporando a vítima, volto de vez ao século retrasado e escrevo para o meu Diário – depositário exclusivo das informações da minha vida rs.

Querido diário

Hoje, 24 de março 

Durante o período em que estou de molho compulsoriamente, algumas situações, umas óbvias e algumas surpreendentes, têm me feito refletir, quando muito para passar o tempo.

– Claro que a coisa mais importante da vida de um ser é ser saudável. Sem esta predisposição, nada tem a menor graça. Mas, sei lá, deve ter gente que curta ser paparicada nos momentos de fragilidade… Não é o meu caso, como estou cansada de mostrar aqui. Fico num mal humor danado de pensar em precisar ter uns afagos só porque estou dodói. Claro que manifestações de carinho são muito bem-vindas, mas que venham em momentos agradáveis e não quando estou acamada. Já a Dama das Camélias, pela imagem que ilustra o famoso livro, era chegadinha numa paparicação.

– Por falar na figuração, não tenho a menor dúvida de que uma funcionária é essencial nesta fase. Ter alguém que prepare a alimentação, que traga uma limonadinha suíça para ingerir um remédio… tremendo mimo!!!

– Com surpresa, descobri ser intriga dos mal-humorados de plantão que uma bebidinha alcoólica elimina o efeito do antibiótico. É complicado explicar, mas basta diminuir o prescrito intervalo entre uma dosagem e outra… Aí, o organismo se vira. Óbvio que deve ser uma coisa só para matar vontade. Caso contrário, passar de 12 para 2 horas o intervalo entre os comprimidos, por exemplo, é dose… Haja estômago e haja fígado!!! Mas consulte seu médico antes de seguir meu exemplo.

– Maravilha viver no século XXI. Aquela história de que pegar pneumonia é igual ao “gato que subiu no telhado”, já era. Mas, para o imaginário das coroas do século passado, uma gripe forte leva à pneumonia, que leva ao hospital, que leva à UTI e que acaba no caixão. Haja medo de ir embora pro lado de lá. Pelo sim, pelo não, dar uma de Dama das Camélias não faz mal nenhum.

– A surpreendente novidade é a de ter descoberto um nicho no mercado – a do ovo de pata. Antes do super Fleming ter descoberto a penicilina, algumas prováveis vítimas da pneumonia, sem saber, afastavam a então mortal doença entupindo-se de ovos das graciosas aves. As danadas botam ovos que fortalecem o sistema imunológico, canal aberto para a entrada das bactérias. Numa googada, fiquei sabendo das maravilhas vindas das patinhas. Além de tantas vitaminas e sais minerais que contém os seus ovos, ainda tem os tais antioxidantes – que anulam os efeitos dos complicados, mas hoje famosos, radicais livres – que previnem trocentas doenças. 

Mas vai achar um ovo de pata no mercado. Maior trampo. Os poucos produtores deveriam se unir, contratar alguém que fizesse uma tremenda campanha, divulgando todas as benesses dos frutos advindos das respectivas criações de patas, e entupir o mercado com os ovos. Claro que quem tem amigos não morre pagão. Ao fazer a xepa no Ceasa para sua porquinha de 200 quilos, minha querida Maria Eugenia descobriu uma tímida banquinha com os tesouros das patas. O curioso é que a vendedora falou que só vende para quem está em tratamento de pulmão!!! Bingo!!! 

– Ficar 100% de molho também é coisa lá de trás. Aliás, lembro que na primeira vez que tive pneumonia, tinha uns 4 anos e fiquei dentro de uma bolha de plástico respirando oxigênio. Que fique só entre nós, querido diário, mas o pediatra, na época, comentou com meu pai que na Alemanha existia um remédio que curava a terrível doença .Sei lá como, um primo do meu pai, que tinha estudado na Alemanha, se colocou em ação e assim devo ter sido uma das primeiras no Brasil a atestar a eficácia do maravilhoso antibiótico e cá estou eu, de novo, me antibiocando.

Como a ordem hoje é dar umas saídas em lugares com pouca gente, acabei de abrir o restaurante do meu clube que hoje tem uma tremenda feijoada. Claro que uma caipirinha de limão com pouco gelo entrou no cardápio e meu próximo remédio vou antecipar em duas horas, tudo bem.

Bem, querido diário… Por hoje é só. Volto aos braços de Morfeu. Afinal de contas, tirar proveito de uma situação chata e descansar é uma boa. Vai que estou acumulando energias para os agitos que vêm pela frente… Qualquer notícia nova, volto aqui. 

Bisous.

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