Os limões da vida

por Ana Boucinhas

Não sem querer, postei recentemente no Facebook, em dias alternados, duas fotos minhas com décadas de intervalo entre elas.  

A primeira é dos primórdios tempos em que não existiam nem máquinas para tirar fotos para documentos. Cabia aos fotógrafos profissionais capricharem nas clicadas a serem dadas na figura estática sentada à sua frente.

Aliás, dei a maior sorte porque aquela foto específica fazia sucesso quando examinavam meu passaporte nas fronteiras que ainda existiam pelas Europas. O cara era realmente bom… deveria até ter feito um book, na época! 

A segunda foto saiu de um celular que captou o instantâneo de uma Ana coroa, em pleno movimento, livre e solta, sem nenhuma intimidação frente à câmera que, sei lá como, se esconde nesta maravilha que é o surpreendente telefone de mil e uma utilidades. 

A jovem e a coroa Ana acumularam centenas de elogios que vieram com os likes.

Tivesse eu agora a tenra idade da garota Ana, meu ego estaria enaltecido. Lá atrás, a insegurança precisava de aplausos. Já a coroa, por ter alcançado com o tempo um ego tão grande, caso se ativesse aos elogios, entraria em órbita.

Alcancei o que pretendia. Provar que a velhice no século XXI pode se distanciar e muito do clássico conceito das antigas vovós.

Ser engraçadinha quando jovem, tem pouco mérito. Cabe apenas agradecer aos ancestrais pelo DNA. E a Deus, por ter nascido perfeita, com tudo funcionando.

Já para construir uma coroa que mereça tantos comentários positivos, há um longo caminho percorrido, onde a força motriz tenha sido sempre o grande amor à vida.

Claro que o destino não poupa ninguém. Os limões vêm para ricos, pobres, bonitos e feios. O grande segredo, a meu ver, é saber o que fazer com eles.

Pelo que consta, até o século passado, o tremendo limão que é a velhice ficava seguro nas mãos enrugadas da grande maioria das mulheres. As “véias” iam se tornando tão amargas quanto ele, com a mente povoada apenas por lembranças. Maior tédio !!! 

Por uma série de fatores, sobretudo a bandeira do feminismo que impulsionou a mulher para fora do lar doce lar, e também a perspectiva de uma vida mais longa, as novas coroas foram levadas a fazerem algum uso do limão, seu velho conhecido.

Pela vida, já amargaram, é óbvio. Mas também já aprenderam que tudo passa, tudo se resolve ou não, e que dá para fazer o que bem entender com eles, menos continuar a segurá-los feito boba.

Alô, futuras coroas !!!! Tratem de ficar atentas aos limões. Vale tudo para não se curvarem frente a eles. É bom lembrar que o fígado deve ficar longe da solução dos problemas. Usar a cabeça com objetividade, e nada mal terem bengalas para se segurar. Meditação é show, pois sei lá como, além de esvaziar a mente, ainda aparecem do nada soluções impensáveis. Para equilibrar a praga do stress que vem dentro da fruta, nada melhor do que praticar algum exercício físico, onde a serotonina arma a maior disputa com o cortisol e acaba vencendo, podem acreditar. Outras bases de apoio existem: corram atrás delas! 

Para quem não é do ramo, tirar uma foto estática é a maior roubada para as coroas. Da alma não vem nada – só aparecem os estragos que o tempo fez. Hajam rugas por todos os cantos grgrgrgr.

Mas nos instantâneos clicados, a realidade do que foi feito pela longa vida é espelhada. Esta foto postada foi clicada no intervalo entre uma e outra dança no espaço em que comemorei meu recente niver. Se há uma coisa para mim, onde a serotonina explode com força total é na dança. Para conservar a essência do que dá prazer é só ter aprendido que dos limões podem ser feitos super drinques deliciosos. Levei a lição a sério, pois sem a menor dúvida, a alegria ostentada nela é a mesma de uma criança encantada com o presente dos seus sonhos.

Sou cercada por amigas maravilhosas, com características bem diferentes entre elas, mas em comum o “joie de vivre” particular de cada uma. O entusiasmo e o amor que colocam nos seus prazeres é a tônica que deve ser seguida por todos. Danem-se as rugas externas. O que importa é manter a alma com a pele lisa !!!!

Viver e não ter a vergonha de ser feliz deve ser a máxima das coroas do novo século !!!!!!!!  �

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