Nilton Travesso

 

A garotada que hoje vivencia com maestria a nova era da informática, com certeza desconhece que seus avós viram nascer a televisão no Brasil. Hoje, o Portal Amantes da Vida reaviva lembranças, na certeza de que não existe futuro sem passado. 

Nilton Travesso num gostoso e informal encontro nos deu umas pinceladas, para contar como foi o seu ingresso no mundo mágico da televisão.

A TV engatinhava, quando se inscreveu em um concurso aberto por Paulo Machado de Carvalho que estava selecionando pessoas para a emissora que estava fundando. Mesmo sendo muito jovem, já se sentia fascinado pelo então espaço informal do aprendizado. Estudara canto e chegou a ser comparsa do Teatro Municipal. Fazia um curso de cinema no Museu de Arte Moderna de São Paulo, à Rua Sete de Abril…

Algo o distanciava do convencional e apontava para um mundo mágico que estava nascendo e que viria para se instalar definitivamente. 

Foto: Divulgação

Aprovado, durante seis meses se dedicou com afinco ao estudo de todas as técnicas do universo da televisão – sonoplastia, luz, câmera etc. E, como camera man entrou para a recém-criada TV Record, isso em 1953. Sobre as dificuldades técnicas na época, Travesso nos divertiu com suas histórias.

Segundo ele, no início, o improviso e a criatividade dominava na TV. Ainda que sentisse que seu futuro estaria atrás das câmeras, fazia das tripas coração para que tudo caminhasse dentro dos conformes. Iriam filmar um jantar elegante? Lá vinha ele trazendo de casa os copos, talheres, pratos. Até ator acabou sendo, quando precisaram inventar um irmão para o John Herbert. 

Fez então sua estreia, atuando ainda mais algumas vezes, mas não era esta a sua paixão. No início a ausência do “vídeo tape” fazia parte e os programas eram todos ao vivo. Indagado se os “cacos” ou acidentes no percurso incomodavam o serio diretor, Nilton nos encantou, afirmando que a edição dos programas desacelerou o comando interior da naturalidade: “No começo da TV, trabalhava-se com alma e espontaneidade, passando emoção”.

Ao ser indagado sobre a inexistência de atores televisivos, nos trouxe informações perdidas no tempo. Talentos trazidos do teatro, como Sérgio Cardoso, Cacilda Becker, Cleide Yaconis, Ziembinski, abriam um novo espaço na teledramaturgia da TV Record. 

Foto: Divulgação

Sua naturalidade, seu caráter, seu desprendimento de vaidade vieram à tona quando indagado sobre os incríveis shows internacionais que dirigiu. E foram muitos: Sammy DavisJr, Nat King Cole, Maurice Chevalier Charles Azsnavour, Ballet Béjard, Marlene Dietrich. 

Elogiou a seriedade profissional de Marlene Dietrich, contando que, aos 60 anos, ela ensaiou, antes da estreia, até alta madrugada ao som do seu pianista Burt Bacharat, e guardou na lembrança, com emoção, um singelo fato – os cuidados que ela teve com ele quando um músico sem querer, fechou a porta na sua mão; carinhosamente, ela o levou para seu camarim para lhe colocar gelo. Muitos que aplaudem com entusiasmo Caetano Veloso, desconhecem ter sido o Nilton Travesso quem provocou o despertar do tímido garoto que ficava na coxia do Teatro Record ouvindo Roberto Carlos. 

“O que você está escondendo? Perguntou Nilton a ele. Por que não joga pra fora o seu talento”? De um encontro na Pizzaria Esperanza, saiu não só a pergunta, como a inclusão do franzino baiano no programa “Uma noite se improvisa” onde Caetano não só ganhou o prêmio do programa (um Dauphine zero km) como toda uma vida de talento reconhecido. 

Palavras textuais de Travesso: – “Tenho o maior prazer em conviver com o ser humano e extrair dele o que tiver de melhor”.  Mas, reconhece a dificuldade em ter atravessado sua carreira de diretor, lidando com o ego dos atores. Está aí o grande desafio que o move – saber administrar a turbulência do dia a dia. “Ser tolerante é saber ser útil”, diz Travesso, e essa é a lição que nos passa. 

Sua sensibilidade aos movimentos atemporais o levou a sempre assumir a direção de programas up to date. 

Dos Festivais de MPB, Fino da Bossa, Grandes Concertos, até ao TV Mulher, primeiro programa no mundo dirigido à mulher que começava a emancipar-se. Graças a ele, Nilton foi contemplado com uma premiação na França e saiu na primeira página do New York Times. 

Para a mulher que estava em casa, assuntos de interesse eram apresentados de forma a não atrapalhar os serviços domésticos. 

Foto: Divulgação

Temas tabus, como sexualidade, começaram a ser ventilados por vozes escolhidas a dedo por ele. Abriu com competência o leque de pessoas que ajudariam a compor o perfil da nova mulher que despontava. 

Nestes quase 60 anos de dedicação à TV não temos como não associar diretamente o nosso “Amante da Vida” Nilton Travesso com a televisão no Brasil. Aliás, como bom representante da nova geração – a dos “evelhescentes”, ele afirma, categoricamente, que depois dos 60 anos começou a viver melhor. 

Nesta idade, segundo ele, você domina melhor as situações interpessoais, passa a ter controle maior sobre a ciranda da vida, faz com que a paixão se libere. “Enquanto jovem, existe a competição, e esta é cruel. O jovem não tem o mais importante que é poder saborear o dia a dia. Com a idade, esta é a nossa conquista maior”. 

Nilton Travesso distribui sua paixão com garra e entusiasmo em todas as suas atuações. O excelente programa “Saia Justa”, onde, aliás, a atriz Maria Fernanda Cândido será a próxima a participar é a sua atual principal preocupação atualmente. 

Há 12 anos, Nilton criou a Oficina de Atores Nilton Travesso, escola de formação de atores para Teatro e TV, de onde saíram alguns nomes conhecidos do grande público, como Ana Paula Arósio. 

Desse modo, uma vez mais, Nilton Travesso contribui ativamente para o engrandecimento da arte cênica no Brasil. 

Seu grande desafio seria levar ao cinema a novela Éramos Seis, dirigida por ele e ganhadora do Troféu Imprensa 1995. Mas sua modéstia o impede de vibrar com o filme biográfico que pretendem fazer sobre ele. Assim é Nilton Travesso.

Ao seu lado, a querida Marilu, sua esposa e companheira de tantos anos, encontra a tranquilidade para dedicar-se ao seu novo livro “Caminhos da Fé II”, e dos seus quatro netos queridos.  Lucas, de 14 anos, já o desafia em partidas de tênis, outra grande paixão.

Foto: Divulgação

E Nilton termina: “Não sei por conta de que mistério genético, uma boa dose de minha paixão pela TV foi transmitida ao meu filho Marcelo. E aí está mais um Travesso, colecionando experiências, vivendo emoções, guardando histórias, para contá-las, sabe Deus quando. É o ciclo da vida”.

A nós, meros tele espectadores, não nos cabe adivinhar os próximos passos da televisão brasileira. Mas Nilton Travesso, com certeza, já tem nas mangas do colete, resultados para os desafios que poderá continuar a enfrentar.

 

 

Comentários 7

  • edileusa silva07/02/2014 em 16:24

    Estou maravilhada com este site!!!!

  • Claudina vts23/07/2013 em 11:06

    Nossa isso foi de mais ele merece afinal sua História de vida é um grande drama eu gostaria tanto de conhecer esse grade homem sou uma pessoa mesmo com essa idade quero fazer parte dessa história só cinco minutos para morrer em paz um dia e o meu sonho parabéns pelo seu trabalho e a essas meninas e tambem a gente que assiste tudo que e bom gente que fãs a gente Milton que discrobe a gente estou esperando bjs

  • Eugenia Fleury27/06/2013 em 18:25

    Parabéns pela entrevista de um grande proficional que tenho a maior admiracão,

    e que tive o privilégio de fazer alguns trabalhos com ele….Nilton Travesso, você

    é o cara da televisão brasileira!!!

  • Tânia Gritenas de Carvalho28/07/2012 em 13:28

    Nilton, pessoas como você só enriquecem aqueles à quem podemos chamar de humanos de verdade.

  • Ana Serra26/07/2012 em 19:29

    muito bom! ele escreveu com outros, também bravos, a história da TV no Brasil!

  • Amantes da Vida26/07/2012 em 17:11

    Um elogio seu nos da um super aval.Obrigada.
    Resumir uma vida tao brilhante foi uma ardua missao !!!!!!
    BJS
    Ana Boucinhas

  • Marilu Torres26/07/2012 em 15:14

    olá Meninas
    Ficou ótima a entrevista.Parabéns pelo ingresso na WEB, gostei muito do site.
    Bjs
    Marilu

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