Maturidade e conectividade

 

Lembro-me do tempo em que o mundo era apenas a nossa aldeia e isso não jaz num tempo tão distante assim. Lembro-me do tempo em que se escreviam cartas e haviam selos e uma mágica expectativa do encontro com o outro, tudo levava tempo e a angustia aumentava com passagem do carteiro todas as vezes trazendo consigo, talvez, a resposta tão esperada.

Eram os tempos da nossa inocência e o mundo caminhava num ritmo muito lento, o relógio parecia preguiçoso, os dias, os meses, o ano tardava a passar. Éramos felizes assim em nossa maneira e em nosso passo a passo cotidiano entre auroras e crepúsculos.

Para os que tiveram a chance (sorte em francês) de viver este tempo restam com certeza lembranças romanceadas da nostalgia dos sentimentos ingênuos como em “Cinema Paradiso”. Hoje, no entanto, estamos nós aqui bafejados pela graça da longevidade e dos recursos tecnológicos que nos permitem sermos conhecedores do antes e do agora. E agora?

É inegável que fomos avassalados pelas novas tecnologias e pela urgência de compreensão deste mundo novo que em princípio parece não fazer parte das nossas realidades, ao menos pelo que imaginávamos em nossas breves reflexões sobre o futuro.

Falar de maturidade no século vinte e um requer uma análise dos muitos aspectos deste progresso e seu impacto em nossas vidas. De início parece assustador o entrosamento das novas gerações e seus computadores de mão. Para nós existe o imenso mistério que cerca o nosso relacionamento com estas pequenas máquinas interativas. É equívoco não falar das maravilhas possibilitadas nos dias de hoje pela comunicação rápida, pela integração em tempo real e pela acessibilidade imediata com um universo de informações.

Lembro-me do tempo em que ostentávamos orgulhosamente a enciclopédia Barsa ou a Britânica na estante de nossas casas. Era status possuir uma das duas e denotava ali um ambiente afeto ao conhecimento, era quase um patrimônio. Hoje tudo aquilo e muito mais está disponível de forma simples e rápida para qualquer mortal que tenha algum interesse. Existe o oráculo a quem tudo se pergunta e de onde vem todas as respostas. O conhecimento não é mais aquilo que cabe em nossos cérebros, inventaram um cérebro planetário e tudo está acessível para quem o consulta.

Quero ainda enfatizar que conhecimento não é sabedoria. Conhecimento é o acumulo de informações. Sabedoria é a maneira como utilizamos todas elas. Isto a máquina ainda não sabe fazer. Resta então acalmar a alma e não acreditar que uma coisa substitui a outra. Sempre haverá espaço para aquilo que apenas o tempo sabe fazer.

A tecnologia reescreveu os dogmas do conhecimento tradicional e nós vamos fazer o que com isto? Resta, com tranquilidade, nos adaptarmos a estes mecanismos e usufruir de seus benefícios segundo nossos interesses e vontades, até porque nada mais será como antes e o diferencial será certamente a atitude diante do que virá.

É certo que isto é um desafio para muitos, natural, afinal nascemos numa geração analógica e tudo hoje é muito digital. De melhor neste mundo do cyber relacionamento vale salientar que esta porta tecnológica possibilitou a conexão, muitas vezes, entre pessoas que padeciam do isolamento, restritas às possibilidades do seu tempo.

Este termo eu rejeito em parte. Obviamente tenho respeito para com o acervo de todas as experiências acumuladas e que justa e merecidamente contribuíram para o que somos atualmente. Por outro lado o nosso tempo é agora, não foi e nem será. Agora é a palavra da vez, como diria aquele santo das causas urgentes.

Para nós descortina-se um mar de possibilidades e está ao nosso alcance também toda esta fluidez da vida que pensamos às vezes não nos pertencer. A capacidade de integração das redes sociais alavancou definitivamente um infinito de possibilidades. Ampliou o horizonte das amizades, aproximou o contato inter familiar e abreviou o tempo das coisas para uma velocidade nunca imaginada.

Na verdade este universo virtual aproximou e misturou uma diversidade imensa de pessoas, de interesses e de possibilidades impensáveis anteriormente. Para nós resta vencer o medo e encarar positivamente esta interação nas redes. Faz parte do nosso DNA de pessoas resistentes, capazes e otimistas para com o futuro que ainda temos pela frente. Carrego comigo a ideia de que nada pode ser mais rejuvenescedor que a disponibilidade para o NOVO.

Estar preparado e utilizá-lo será apenas mais um detalhe diante da nossa imensa capacidade de adaptação e de vivencia das muitas possibilidades deste novo tempo.

Foto: Divulgação

 

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