Marijuana

por Maria Eugenia Cerqueira

Eu estava recentemente nos Estados Unidos quando a reedição de uma publicação chamou-me atenção, com o título acima: Marijuana. Apesar da maconha não ter nada a ver com a minha realidade, resolvi informar-me a respeito e comprei o libreto.
À medida em que comecei a inteirar-me sobre a história real da maconha, fiquei impressionada! Não tinha a menor ideia de que a relação entre os homens e a “canabis” datasse de cerca de 12.000 anos antes de Cristo, no período neolítico! Esta era marcou o início do assentamento humano como cultivadores da terra, em contraposição ao nomadismo anterior.

Historiadores imaginam que esta planta foi originária da Ásia Central sendo um dos primeiros cultivos da humanidade!
As tribos nômades asiáticas levaram a maconha para a Coreia e o Japão 2000 anos antes de Cristo. Estes mesmos grupos difundiram esta planta na Europa e Oriente Médio. Em 400 AC, chegou à Grã Bretanha e seiscentos anos antes de Cristo os saxões e vikings já estavam cultivando a cannabis. Os portugueses e espanhóis trouxeram a maconha para o Novo Mundo durante a colonização. No século XVI espalhou-se na América Latina e para o norte, em ambas as costas, no que hoje são os Estados Unidos.
As fibras resistentes da cannabis eram úteis na fabricação de tecidos e das cordas dos arcos, o que incentivava o cultivo. A China cultivou cannabis desde os primórdios da civilização. Aliás, na antiguidade, a China era conhecida como a “terra das amoras e da maconha”! A mais antiga prova arqueológica foi encontrada em Yangmingshan, perto de Taipei, em Taiwan. Lá foram desenterrados potes de cerâmica decorados externamente com cordas feitas com fibras de maconha – datavam de 10.000 AC. Na bacia do Rio Amarelo, a civilização Yangshao utilizava desenhos de folhas de cannabis como elemento decorativo em seus potes. Sementes queimadas de cannabis foram encontradas em túmulos nas montanhas da Sibéria datando de 3.000 antes de Cristo.
Há evidências de que a cannabis era utilizada em cerimônias religiosas pelos xamãs, além dos usos medicinais, praticados pelo pai da medicina chinesa, Shen Nung (4.000AC). A cannabis misturada com vinho, séculos mais tarde era usada na China como anestésico durante cirurgias, conhecida como ma-fei-san.


Chegando no Japão, a maconha foi considerada um símbolo de pureza. Era inclusive entregue aos nubentes, como presente pelo enlace matrimonial, servia para compor os tecidos cerimoniais e usados nos rituais no xintoísmo pelos líderes religiosos para afastar demônios e outros espíritos malignos, a exemplo da cultura chinesa.
Na mesma época, a maconha chegou à Índia. Em decorrência do clima quente, a cannabis cultivada nesta região apresentava princípios psicoativos mais fortes. Quanto mais quente o ambiente, mais resinosa se tornava a planta. Uma vez espalhada pelo território hindu, tornou-se parte das religiões budista e hinduísta.
Gautama Buddha, fundador do budismo, morou na Índia entre o quinto e sexto ano antes de Cristo sendo seu nome de nascença Siddharta Gautama. Durante os 26 primeiros anos de vida, como um príncipe dentro das muralhas de um castelo, viveu em grande opulência. Descobriu então a realidade de quem vivia além daquelas muralhas, no sofrimento e na doença, quando então abriu mão da opulência para ir em busca da purificação espiritual. Meditou durante seis anos sob uma árvore antes de se tornar iluminado – durante este tempo todo, consta que alimentava-se unicamente de uma semente de cannabis todos os dias!
O Hinduísmo, outra importante religião da Índia, centrada no livro dos Vedas, data de 1500 a 1200 AC. O Deus Shiva descansa sob uma árvore de cannabis. Ele acorda com fome e come um pouco desta planta que o revigora, tornando-se seu principal alimento. A palavra hindu para cannabis é bhang e Shiva algumas vezes é chamado de Deus do Bhang por ter sido o introdutor da cannabis no meio dos homens como fonte de felicidade e prazer.


A marijuana até os dias de hoje continua sendo uma das fibras vegetais com maior resistência. Sua durabilidade tornou-a valiosa para a produção de velas, redes, malhas, vestuário, cordas diversas inclusive para arcos. Também era cultivada pela produção de grãos, extremamente nutritivos. Todos estes usos foram responsáveis pela proliferação da marijuana pelo mundo afora.
O mais antigo tratado chinês sobre agricultura listava a maconha como uma das culturas mais importantes. A maconha foi usada como moeda, como meio de pagamento de taxas e impostos e como tributo ritualístico. Na fabricação de papéis para documentos importantes, textos escolares, livros e telas para pinturas, os chineses privilegiavam estas fibras por serem impermeáveis e duráveis. Há ainda hoje, exemplos destes itens, de muitos séculos atrás expostos em museus.
Aparentemente foram os Vikings que trouxeram a marijuana pela primeira vez ao Novo Mundo.
Durante o período da Renascença, com a revolução da impressão de livros e documentos em prensas, a maconha tornou-se um dos elementos extremamente importantes na feitura dos papéis, juntamente com o algodão e o linho.
A maconha plantada até então na Europa tinha baixos níveis de THC mas ainda assim era usada para fins medicinais. Vários naturalistas importantes à época, em seus respectivos países, apontavam os benefícios terapêuticos da planta. Em 1649, o herbalista inglês Nicholas Culpeper reuniu vários destes relatos num compêndio chamado A Physicall Directory . Nele aparecem usos para todas as partes da planta, raízes, sementes e caule. Tosses, flatulência, gota, dor nas juntas, parasitas, inflamações na cabeça, cólicas, praticamente tudo poderia ser curado por esta verdadeira panaceia universal.
Cristóvão Colombo chegou nas Américas em 1492, sob velas feitas com marijuana! Americo Vespucci navegou para o Novo Mundo alguns anos mais tarde. John Cabot foi mais longe para o norte até Newfoundland. Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, os franceses colonizaram o Canadá, a Espanha a Flórida, os ingleses a costa americana. Não fosse pelas velas feitas com maconha, o mundo de hoje certamente seria bem diferente!


A história da maconha mudou, e muito. Milhões de pessoas são hoje em dia presas em função de posse, compra e venda de marijuana, dependendo do país ou mesmo do Estado em que são flagradas com a erva. Os defensores da permanência da marijuana na ilegalidade defendem a tese de que ela seria a porta de entrada para drogas mais pesadas, o que nunca foi provado. Acreditam que a liberação teria um impacto negativo de aumento de consumo, como ocorreu com os cigarros e o álcool. Indo além, advogam que a marijuana seria prejudicial à saúde, causando perda de memória e redução de QI – o que também não foi provada a correlação. Pesquisas médicas corroboram o uso das substâncias contidas na maconha como benéficas no tratamento de diversas doenças. Só o tempo poderá definir a que conclusão os homens chegarão a respeito de uma planta tão geradora de polêmica internacionalmente.

E você, leitor, qual a sua opinião a respeito? Deixe seu testemunho.

Comentário 1

  • Marina Mendonça21/09/2019 em 09:24

    Sei que da maconha é feito muitos remédios proibidos aqui. Remédios que são impressioneis aqui é não liberam.Deveriam liberar!!!

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