Lizar

 

Miracatu, no Estado de São Paulo, em Tupi-guarani significa “Terra de Gente Boa”. Outro não poderia ter sido o berço do artista plástico Sidnei Lizardo que, no dia 06 de agosto de 1939, abriu os olhos para o mundo, às margens dos rios São Lourenço e Espraiado.

Aos três anos veio com os pais para a capital, para o bairro do Ipiranga. A família é composta de mais quatro irmãos. Estudou as primeiras letras na Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Setúbal, na Rua Silva Bueno, da qual guarda boas memórias de infância. Na universidade da vida desenvolveu sua capacidade de entendimento e reflexão. O interesse pelo desenho começou aos doze anos, imitando um dos irmãos mais velhos, copiando a capa de uma revista. Certo dia, voltando de uma festa, pela manhã encontrou, na Praça da República, um grupo de escultores trabalhando e, encostado nas grades da escola, que fica no mesmo local, o grande poeta Solano Trindade!!!

Foto: Divulgação

Ele tinha ao seu lado, pendurado na cerca, uma pintura singela, naïfe. Perguntado sobre o que estavam fazendo todos ali, ele esclareceu que estavam fazendo arte, porque o povo tinha necessidade disso. Ficavam na Praça porque achavam importante que os passantes convivessem com a arte e aprendessem a apreciar esse aspecto da criatividade humana.

Achou a ideia muito coerente e ofereceu-se para participar, pedindo autorização inclusive para convidar um amigo artista, sapateiro por profissão, assíduo frequentador da Pinacoteca, Luiz Lourenço, para integrar o grupo. No domingo seguinte, lá estava Lizar e Luiz, aos outros reunidos. Desse movimento surgiu por iniciativa de Lizar uma associação que ele presidiu até 1975, quando deixou o cargo voltando-se exclusivamente ao desenvolvimento de sua obra, o que faz até hoje.

Foto: Divulgação

Autodidata, começou sua pesquisa no figurativismo espontâneo, procurando exercitar sua sensibilidade em todos os “ismos”, segundo suas próprias palavras.

A certa altura, ingressou na Associação Paulista de Belas Artes. Passados três meses, o professor Inocêncio Borguese limitava-se a elogiar o que Lizar produzia, sem introduzir na obra nada de novo. Talvez não quisesse alterar a estética criadora do artista, mas o aluno resolveu seguir adiante sozinho. Familiarizou-se e desenvolveu trabalhos em áreas diversas como a gravura em metal, litografia, escultura e arte conceitual. A música tocou-o através do canto, integrando o coral Cantafro, onde aprendeu teoria musical e técnica vocal, entoando musicas clássicas e afro-brasileiras.

O mercado de arte no Brasil é muito restrito, mesmo se considerarmos grupos sociais com bom poder aquisitivo. Poucos são os artistas reconhecidos, apesar de muita gente fazer obras de qualidade. Viver de arte é possível, mas não é fácil, e o caminho é bem árduo para um afro-brasileiro morador da periferia.

Foto: Divulgação

Em 1968, saindo do estúdio que era na Estação da Luz, Luiz e Lizar foram abordados por um grupo de militares que lhes deu voz de prisão depois de agredirem Luiz. Algemados por mera suspeição preconceituosa sofreram humilhação e constrangimento. O episódio fez nascer no coração do artista a necessidade de colaborar com a integração pacífica dos afro-brasileiros na sociedade. Em suas reflexões, Lizar resolveu desenvolver um símbolo, com o propósito de reafirmar a dignidade nos afro-brasileiros e a qualidade da ação política com sensibilidade, que falasse através de sua obra, porque todos os cidadãos são iguais perante a lei, independente de raça ou religião, por direito constitucional.

Surgiu a capoeira em sua obra, como a marca da liberdade, a luta dança de escravos. Iniciou-se um processo criativo harmônico, estético e libertário! Trabalhando tanto o óleo sobre a tela, com sobreposições e transparências, quanto esculpindo em madeiras, soldando metais ou moldando barro, Lizar consegue transmitir sua espiritualidade em obras que falam por si só. Cada uma traduz um momento criativo distinto, mas, existe unidade em todas as manifestações artísticas.

Pindamonhangaba homenageia seu ilustre filho, João do Pulo, com uma obra monumental de Lizar elaborada em metal soldado, que já se tornou símbolo da cidade. Incontáveis foram as exposições das quais Lizar participou, mas questionado sobre quais lhe falaram ao coração mais de perto, elencou:

1ª. Bienal Nacional em 1976
2ª. Introspective em Los Angeles,em 1989
3ª. Direção e participação no Projeto Zumbi no MASP em 1983
4ª. A Mão Afro Brasileira no Museu de Arte Moderna em 1988
5ª. Exposições individuais no Museu de Arte Brasileira em 1992, Museu da Imagem e do Som Rio de Janeiro em 1978, Pinacoteca Do Estado S.P em 1999, e no Centro Cultural de São Paulo em 1986.

Lizar defende a tese muito acertada de que as artes plásticas deveriam fazer parte dos currículos escolares. Indo além, sugere que a mídia precisaria dar uma ênfase maior a essa área, como já faz com relação às artes dramáticas e a musica, sempre presentes no radio e na televisão, em filmes e novelas. Está em estudo um projeto de sua autoria propondo aulas de artes na faculdade Zumbi dos Palmares.

Foto: Divulgação

Fé e esperança são os esteios da vida de Lizar – as dificuldades são superadas e nos momentos difíceis, os amigos e a família, que acompanham seu trabalho, são os que o ajudam na caminhada. Em seu dizer, a arte é “a ponta de lança na conquista da dignidade”.

Quando a cada signo do Zodíaco foi atribuída uma missão, ao Leão foi dada a tarefa de exibir ao mundo a Criação em todo o seu esplendor, e concedido aos nascidos nesse período o dom da honra. Ao representar o mundo em suas obras, o artista Lizar mostra-se um perfeito leonino, privilegiando inclusive a cor amarela como sua favorita.

Em casa, o radio é ligado pela mulher Eunice, às 7hs da matina na Radio Cultura, em programas de musicas clássicas e só desligado depois da meia noite quando a família se recolhe. Os dois filhos, Ubiratan e Ubirajara, herdaram o gosto pelo belo, mas não o pendor artístico do pai.

Lizar é espiritualizado e advoga que a fé se levada a sério, já poderia ter mudado o mundo, tornando os indivíduos menos individualistas e mais evoluídos em todos os sentidos.

 

Comentário 1

  • Maria Eugenia Cerqueira25/10/2012 em 23:10

    Quem quiser entrar em contato com o artista, pode fazê-lo através do site, dando email ou telefone que repassaremos para o Lizar tratar direto com o interessado.

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