História do café

 

Uma xícara de história do café em São Paulo

É muito grande, hoje, o glamour dos cafés especiais. É um grande prazer sentar-se no Coffee Lab para uma xícara de café. Mas boa parte desse prazer baseia-se no esquecimento. No esquecimento de que muito desse mundo maravilhoso da café veio à luz banhado em sangue.

“Os bugreiros enfeitam as suas espingardas com os dentes dos índios por eles mortos e vendem aos fazendeiros orelhas secas de índios por preço de dúzias”. Esta informação não nos chega de um tempo demasiado antigo, e não parece ter relação com o progresso. Tampouco nos chega de um lugar muito distante. Era a região de Bauru, no Estado de São Paulo. Construía-se a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que avançava pelos “sertões bravios” em processo de conquista pelo café. Os índios kaingang eram o maior obstáculo. Eliminá-los pura e simplesmente era a estratégia para o avanço dos trilhos.

As matanças de índios eram chamadas dádas, quando se caía de assalto sobre as aldeias, eliminando a todos ou poupando mulheres e crianças que eram vendidas aos brancos. A organização das dádas era decidida pelos fazendeiros e moradores da região, mas contava com larga compreensão e apoio do governo paulista que, com o tempo, acabou se envolvendo diretamente no conflito, enviando batalhões da Polícia Militar para reforçar a ocupação do território.

O diretor do Museu Paulista, o cientista Hermann von lhering, foi muito criticado por apoiar abertamente os colonizadores e suas dádas em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo. Em 1911, procurou defender-se dizendo que havia no Brasil, três programas dentre os quais escolher, para enfrentar a questão indígena: o de José Bonifácio (1823), o seu próprio (1908), e o do Marechal Rondon (1910).

O seu programa consistia em considerar os “paleobrasileiros” plenamente responsáveis perante o direito, enquanto os demais programas os consideravam tutelados pelo Estado. Mas von lhering não estava só, conforme demonstrou, citando manifestação do Club de Engenharia do Rio de Janeiro que dizia, literalmente: “exterminem-se os refratários à marcha ascendente da nossa civilização, visto como não representam elemento de trabalho e de progresso”.

A associação entre sangue e progresso fazia-se inevitável, como dentes e orelhas de kaingang atestavam. Dezenas de milhares deles morreram, inclusive por epidemias. Mas foram os conflitos com eles que levaram à criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), dando vitória ao programa de Rondon, e não ao de von lhering.

A história desse período negro do “pioneirismo paulista” está registrada num livro de um ex-ferroviário da Noroeste, sindicalista e comunista militante, que o escreveu em horas vagas, consultando os arquivos da companhia (CORREIA DAS NEVES, História da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, Bauru, Tipografia e livraria do Brasil, 1958).

Por que recordo tudo isso? Porque em 2012 temos, como efeméride, 100 anos da “pacificação” dos kaingang e uma idéia corrente entre antropólogos e museólogos é criar um Centro de Referência Kaingang no Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuire (Tupã, SP).

Francamente, acho que os produtores desses cafés charmosos que fazem nosso deleite deveriam dar uma força a essa iniciativa, preservando a memória daqueles cujas terras foram ocupadas sem pedir licença. Esse mesmo café que, hoje, fala em sustentabilidade e produção socialmente justa tem uma oportunidade para mostrar coerência e se reposicionar na história.

Foto: Divulgação

 

Por Carlos Alberto Dória

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