Exemplos de solidariedade

Projeto Velho Amigo

Não é segredo que o atendimento na rede de saúde pública no Brasil deixa a desejar, isto para usar uma expressão mais airosa, em respeito aos responsáveis pelo setor.  Não por haver poucos médicos, mas pela falta de condições de trabalho, de infraestrutura, instalações, medicamentos e até mesmo de segurança para a prática da profissão. O paciente leva meses para conseguir fazer os exames necessários ao diagnóstico e tratamento dos males de que padece, deixando-o à mercê da própria sorte, rezando para resistir até a data da próxima consulta.

Por força do sistema inoperante, é precária a comunicação entre os profissionais, o que inviabiliza um diagnóstico abrangente do doente. Quando por fim, chega-se a alguma conclusão a respeito do problema, inicia-se nova via crucis: a obtenção dos medicamentos. Inexiste medicina preventiva, só paliativa. Cortinas de fumaça são lançadas pelo poder público, remendando o que precisava não de consertos, mas de reformas de base e seriedade para efetivamente oferecer à nação uma contrapartida ao dinheiro arrecadado sob o pretexto de cumprir o que a própria Constituição determina em seu artigo 196, in verbis:

“Art. 196 – A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

Quem deveria agir não o faz, mas isso não impede que um grupo de trinta médicos de diversas especialidades, capitaneado por uma cirurgiã plástica, movidos todos pelo espírito humanitário que embasa a arte de curar, duas vezes ao ano, atenda gratuitamente cerca de trezentos idosos de diversos asilos espalhados pela cidade de São Paulo.

Trata-se do Mutirão da Saúde do Centro Médico Berrini. As pessoas chegam em ônibus, providenciados pelos voluntários, acompanhados por responsáveis do asilo. São identificados e acomodados de forma a já de pronto serem submetidos a exames básicos como medições de pressão e testes de diabetes. Após consultas com clínicos, são encaminhados aos especialistas necessários – enquanto esperam, recebem lanche, almoço, sucos e refrigerantes.

Uma vez tratados os idosos, são-lhes destinados os medicamentos necessários, igualmente sem qualquer ônus. O grupo organizador recebe e distribui todo tipo de doação: fraldas geriátricas, roupas, utensílios e tudo mais que for disponibilizado para o conforto dos atendidos, exceção feita a numerário. Bem diz o ditado: “Quem quer faz, quem não quer manda”…

Não há necessidade de ir muito longe para comover-se com exemplos de solidariedade e amor ao próximo. Todos voluntários, profissionais categorizados e colaboradores de toda ordem deixam o lazer no fim de semana com suas famílias, para prestarem serviços a pessoas que de outro modo jamais teriam possibilidade de verem seus problemas resolvidos de forma tão rápida e eficiente, numa demonstração do muito que pode ser feito, quando há realmente vontade de ajudar.

Tudo começou quando a cirurgiã plástica Beatriz de Lassance Brito participou de um jantar em prol do Projeto Velho Amigo da Daslu. Questionou-se: “quem sabe não consigo fazer algo também por esse pessoal tão sofredor?” Levou a ideia aos colegas, ao dono da Clínica Berrini e logo, contando com a ajuda de conhecidos seus, partiu do pensamento ao ato. De pronto os amigos confiaram na capacidade de organização e liderança da Dra. Beatriz e dispuseram-se a unir forças. O primeiro evento foi de menor porte, conduzido numa das casas de idosos. Logo se constatou que pela facilidade da infraestrutura, a melhor solução seria levar “Maomé à montanha”, ou seja, reunir os velhinhos na Clínica Berrini, onde dispunham de salas apropriadas e aparelhos de exames diversos, com possibilidade inclusive de execução de pequenas cirurgias. Os participantes tornaram-se mais numerosos de ambos os lados: ajudantes e ajudados. Exames laboratoriais são feitos por terceiros, também de forma não onerosa.

Este ano, com a boa vontade de um primo e da expertise da renomada repórter Maria Manso, a Dra. Beatriz decidiu fazer um vídeo captando declarações de médicos, pacientes e outras pessoas envolvidas na causa. O objetivo da médica é difundir a ideia, sensibilizando outras clínicas a fazerem mutirões semelhantes, pois a população carente é muito numerosa, aí se incluindo moradores de rua que também são amparados pelo movimento, vindo volitivamente da Casa de Passagem Dino Bueno.

A energia que flui no local, durante o mutirão é impressionante. Todos estão felizes, trocam experiências, falam de si, contam histórias – não se ouve reclamações, nem há atropelos. Na realidade é uma festa durante a qual a saúde é o mote e não a doença. Para muitos dos presentes, o único momento em que serão alvo de atenção e carinho, até o próximo mutirão. Para todos, aquele dia abençoado será o assunto de várias conversas.

Que a vida devolva em benesses aos organizadores a grandeza do trabalho executado. Na verdade, leva-se para casa, dentro do coração, muito mais do que se deixa, em termos de serviços e trabalho. Diante de tantos acontecimentos atrozes que nos cercam, é gratificante sentir-se humano – é bom fazer o bem!

Comentário 1

  • Marisol L Palma09/04/2014 em 17:41

    Ola… gostaria de saber mais detalhes sobre o mutirao e das possibilidades de me tornar uma voluntaria.
    Se preferir, meu telefone eh (11)3726-4416 e (11) 991-724-584.
    obrigada e abracos,
    Marisol

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