Época dos bailes

 

No balanço do Rei dos Bailes  (Artur Xexéo) 

Foto: Divulgação

A  função começava de  tarde. Era a hora em que as meninas, os brotos, iam para a cozinha preparar  a comidinha para logo mais. As comidinhas não variavam muito. Todo mundo gostava mesmo era de… sacanagem, o salgadinho que juntava, num só palito, um pedacinho de salsicha, outro de queijo e uma azeitona. Para sofisticar a culinária, os palitos, já com os respectivos alimentos, eram espetados numa grande bola feita de papel-alumínio.

O resultado seria chamado hoje de instalação e faria a glória de qualquer artista plástico contemporâneo. Na época, era só um jeito de  alimentar adolescentes entre uma paquera e outra. Para quem está chegando agora, paquera era o ato de conquista amorosa, nem sempre bem sucedido. 

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Ainda na cozinha, era necessária a presença de um adulto. Ele se  responsabilizava pelo baixo teor alcoólico da bebida que seria fornecida à noite. Os brotos não gostavam (hoje se diria “as mina não gostam”), mas, por alguma inexplicável razão, os pais teimavam em preparar ponches. Era uma espécie de sangria em que o vinho era substituído por… cidra! Para  completar a mistura usavam-se pedacinhos de maçã, suco de groselha, gotas de  limão e um pouco de açúcar. Era o suprassumo do enjoativo (acho que  suprassumo é uma expressão que também morreu naqueles tempos), mas, em  algumas famílias, a única maneira de álcool ser consumido por adolescentes.

Alguns pais mais liberais dispensavam essa parte vespertina da preparação do grande evento. Mas, à noite, eles estavam lá cuidando da bebida atrás de uma cômoda improvisada de bar. Em vez de ponches, misturas exóticas, como Coca-Cola e rum (Cuba-libre), vodca e Crush (Hi–Fi) e cachaça e Coca-Cola  (Samba em Berlim). Os velhos… ah… era assim que chamávamos os coroas…  bem, coroa também já não se usa mais. Então, os representantes da terceira idade, ou próximos a ela, garantiam, na Cuba-libre, por exemplo, que as doses de rum seriam sempre em menor quantidade que as de Coca-Cola.

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A etapa seguinte era promovida pelos rapazes, pois era necessário esforço  físico. Era o momento de afastar os móveis da sala, deslocando-os para que  ficassem encostados às paredes. Uma parede era reservada para cadeiras. Era ali que as meninas mais feiosas, as que usavam óculos ou aparelhos ortodônticos, tomavam “chá-de-cadeira” (alguém ainda sabe o que é  chá-de-cadeira?). Os rapazes se enfileiravam em outra parede, em pé, com uma  perna dobrada e o pé desta perna, mais especificamente o sapato, sujando a parede, o que sempre provocava crises em família no dia seguinte. Era dali que eles perscrutavam — não, o verbo perscrutar não era usado nem naquele tempo — o ambiente e escolhiam uma garota para tirar para  dançar. Arriscavam-se a levar uma tábua — ou um toco no linguajar  atual, ou toco não é mais atual?

A etapa seguinte era dedicada a enrolar o tapete e guardá-lo no quartinho de empregada — eram tempos politicamente incorretos. O importante é que  grande parte da sala ficasse livre para o exercício da dança.

A dança era o  motivo da festa. Um jeito de os brotos se abraçarem, colar rostos e, lá pelas  onze da noite, quem sabe… trocar um beijo rápido.

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Para  garantir a música, um dos rapazes era deslocado para cuidar do som —  não, ninguém falava som, era vitrola mesmo. A primeira tentativa era o twist. Poucos ousavam ocupar a pista de dança. Twist já era meio ridículo até quando foi inventado. O disco de Chubby Checker, então, era posto de lado e substituído pelo da orquestra de Ray Conniff ou por um mais romântico de Neil Sedaka ou Connie Francis. Mas vozes suaves não eram adequadas para animar festas. Já não disse que o rosto colado era só lá pelas 11 da noite? O discotecário, então… — estou falando de uma época em que DJs ainda  não eram artistas —, apelava para um truque infalível: punha um disco de Ed Lincoln na vitrola. A pista ficava cheia imediatamente.

“Vamos balançar, vamos balançar 
  É a ordem do rei que acabou de chegar”.

Ed Lincoln era o mais próximo que essa turma chegava da bossa nova. Os mais intelectuais gostavam de João Gilberto e Nara Leão.

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A turma das festinhas preferia Orlan Divo e Sílvio César, crooners de Lincoln. A música de Ed  Lincoln tinha as mesmas raízes da bossa nova. Também nasceu na boate Plaza em  Copacabana. Só que Lincoln  fazia bossa nova para se dançar. E seu balanço — um jeito então novo de  se falar em ritmo — era irresistível. Nos apartamentos de Copacabana repetia-se o som que alguns privilegiados aproveitavam ao vivo nas domingueiras do Monte Líbano.

Era um hit dançante atrás do outro, e sempre com a predominância do órgão  Hammond de Ed Lincoln: “Miss Balanço”, “Vamos  balançar”, “Vou rir de você”, “Na onda do  berimbau“… Não é por acaso que ele foi chamado de O Rei dos Bailes.

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Ed Lincoln morreu, aos 80 anos, na última segunda-feira. Com ele, foi-se  embora a melhor trilha sonora das festas jovens da década de 60 do século  passado, e o mundo ficou com muito menos balanço. 

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