Comrades 2012

 

                                                  COMRADES – África do Sul – 2012

Em 2007, ao completar sessenta anos, aventurei-me pela primeira vez no percurso de 89 km entre Pietermaritzburg e Durban, na África do Sul. Passados cinco anos, em onze horas e quatorze minutos, a uma velocidade de 7.91 km p/h, repeti o feito pela quarta vez: duas “up” e duas “down”, no jargão da Comrades já que a cada ano os pontos de chegada e partida se alternam.

O período que antecedeu a ultra maratona foi especialmente difícil e o emocional conta muito na disposição para os treinos longos que antecedem a prova. As pernas são comandadas pela cabeça e se esta perder o controle, de nada adianta o condicionamento físico. É como diz o velhíssimo ditado: Mens sana in corpore sano.

Estar num grupo alegre e amigável foi fundamental desde minha chegada à África. Éramos diversos brasileiros e reuníamo-nos para algumas refeições e encontros. Neste ambiente festivo, a tensão foi-se e o foco concentrou-se na corrida. O importante era dar o primeiro passo para frente, após o tradicional canto do galo e nenhum para trás, como bem ensinou o treinador Branca. “Nem mesmo para pegar um copo d’água”, advertiu, “pegue o seguinte, pois este passo atrás pode fazer falta ao final”.

Até o km 50, achei que poderia completar o percurso em pouco menos que 11 horas. Estava à frente do “ônibus” sub-onze (grupo que segue um marcador de tempo treinado a percorrer o trajeto em determinado tempo). Naquela altura, do nada, minhas forças se esvaíram. Uma terrível sensação de vazio e esgotamento fez-me sentar literalmente na beira da estrada. Não sentia nenhuma dor, só um vazio desesperado. Não sei quanto tempo fiquei ali, até que veio uma ordem interna para que me levantasse e prosseguisse, ainda que me arrastasse. Apoiada no guardrail ergui-me e comecei a andar. Bem devagar, um zumbi. Metros à frente, já estava trotando, como se nada houvera. Não acreditava no que eu vivenciara. Em frente, que ainda dá… Chegara ao fundo do poço e conseguira sair, não sei como. Um resgate de energia desconhecida até por mim. Já era capaz até de correr, incrível.

“Só faça força onde é preciso” – esta frase da minha treinadora de musculação Alzira, ecoava na minha cabeça e eu tentava relaxar os músculos o mais que podia.

Horas depois quanto constatei que faltavam “só”  vinte km, novo episódio: desta feita, com muito enjôo. Apoiei-me numa divisória da pista, vendo uma pessoa do outro lado agitar um saquinho de energético, tentando ajudar-me. Nova pausa, muita respiração profunda e controle da mente. As pernas cobravam a loucura da distância já percorrida. Não vou parar, pensei, pelo menos até o próximo posto de abastecimento. Com os músculos duros como um boneco de pau, levantei-me e fui tocando. A certeza de “voar” nas descidas já se transformara na simples esperança de chegar ao final. Encharquei-me pela enésima vez de Pepsi, o único combustível que descia garganta abaixo e consegui fechar a prova ainda com 46 minutos de folga até o tiro de encerramento.

Quando se pisa naquele tapete final, tudo fica para trás: desespero, dores, ansiedades, medo. O estádio comemora sua glória e por dentro você explode de emoção: Vini, Vidi, Vinci, mais uma vez.

Liguei para o meu filho, no Brasil. Ele acompanhara pelo computador toda minha batalha e parabenizou-me pelo tempo e colocação na faixa etária, 12ª. dentre 74 velhinhas amantes da vida. Saber que ele havia, de tão longe, participado do meu trajeto, fez-me despencar em prantos, grata por tanto amor e carinho.

Obrigada a todos os meus amigos torcedores, a eles dedico minhas vitórias, pois sem este apoio, nada seria possível.

 

Comentários 4

  • Dionisio Silvestre19/11/2013 em 13:58

    Maria Eugenia Cerqueira,

    Guerreira Brasileira que não desiste nunca!!! Estamos próximo de encerrar as inscrições para a Comrades Marathon 2014 e com grata surpresa, vejo seu nome na relação de Brasileiros inscritos para a prova de 2014. Parabéns por continuar lançando-se ao desafio. Ultra abraço e que os bons ventos continuem soprando a nosso favor!!!

    Dionisio Silvestre

  • Maria Cristina Moreira Mangabeira17/07/2012 em 20:10

    Parabéns!!!

  • Renata de Camargo Menezes11/06/2012 em 14:01

    Que orgulho de voce!!! Linda experiencia e exemplo de superação!!

  • Ana Boucinhas10/06/2012 em 20:19

    Tomo a liberdade de cumprimenta-la em nome de todos os Amantes da Vida.Que exemplo de determinação e de garra !!!!
    Mas como ammiga pessoal,acho que as medalhas já conquistadas na Africa do Sul estão de bom tamanho.
    Que daqui pra frente a senhora pise só em tapetes vermelhos sem dores e sem sustos.ok?

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