Bob Dolphin

 

                                                      Bob Dolphin, 82 anos, completa maratona n° 500 

Foto: Divulgação

Tive recentemente a subida honra de participar de um marco na história do maratonismo. Como contei em minha coluna de hoje no Equilíbrio corri a maratona do cânion do rio Yakima, onde Bob Dolphin, veterano da Guerra da Coréia e doutor em entomologia, completou sua prova de número 500.

Para mim, foi uma dupla efeméride: marcou também minha volta às maratonas. Minha última prova do gênero fora em 2010, no Chile. Depois ainda fiz uma tentativa em Pacasmayo, no Peru, mas fui forçado a abandonar por causa de dores. Desde então, venho tratando lesões recorrentes, tentando sobreviver às dores e, agora, consegui fazer todo o maravilhoso percurso dessa corrida sem sofrer, ainda que de forma lenta e gradual. De qualquer forma, foi grandioso.

Grandioso também foi estar ao lado de Dolphin, que é uma espécie de lenda entre os loucos por maratona nos Estados Unidos. É um dos seis membros do Hall da Fama do clube Marathon Maniacs – fazer uma maratona em cada um dos 51 Estados dos EUA por três anos seguidos ou completar 333 maratonas são alguns dos critérios para receber a honraria.

O legal é que ele não é exatamente uma pessoa só. No Hall da Fama, por exemplo, a vaga é de Bob & Lenore Dolphin.

Lenore vem a ser sua mulher, apoiadora nas corridas e parceira na organização e direção da maratona de Yakima. Como ele, tem 82 anos e ostenta título talvez inatingível: é recordista mundial e interplanetária de participações em maratonas sem correr. Ela já ficou no final de cerca de 400 maratonas esperando para abraçar e beijar o marido fanático por corridas de 42.195 metros.

Foto: Divulgação

Mas Bob não foi sempre assim. Na sua juventude, quando estava chegando perto dos 50 anos, levava uma vidinha pacata combatendo pragas agrícolas no Missouri. Funcionário do Departamento de Agricultura dos EUA, o doutor em insetos um dia acordou um pouco mais tarde e, para não chegar atrasado ao serviço, viu que tinha um problema: a frente de sua garagem estava tomada pela neve, dois palmos de altura.

Abrir caminho para o carro iria demorar muito. Fez rápidos cálculos e resolveu ir a pé para o trabalho. Gostou.
Nos dias seguintes, por várias vezes trocou o carro por sapatos mais confortáveis. Chegou a primavera, viu gente correndo nas ruas e resolveu experimentar aquilo. Também gostou e continuou daquele jeito meio descansado, sem se preocupar se aquilo era exercício, treino ou remédio. Era prazer e descanso, e isso lhe bastava.

Incentivado por colegas, acabou participando de uma corrida de 10 km na própria cidade onde então vivia e trabalhava, Columbia. Foi uma festa: no seu debute, chegou em segundo lugar na categoria dos mais de 50 anos e ganhou um belo troféu. No ano seguinte, participou de sua primeira maratona e também saiu premiado entre os cinquentões. Que beleza!

Tratou de prosseguir e, aos poucos, se apaixonou. Eu o conheci pela internet quando, já aposentado, iria completar sua maratona de número 400: a efeméride foi também na Yakima River Canyon Marathon, a prova que dirige com sua mulher em uma cidadezinha do interior do Estado de Washington.

Por e-mail e telefone, conversamos várias vezes naquela época. Publiquei a história dele em meu livro “+Corrida”. Na entrevista, ele me dizia mais ou menos isso: “Eu corro maratonas. É o que faço. É o que sou: maratonista”.

A palavra é curta, mas carrega em si muita energia, determinação, garra, dureza, ternura. Faz com que um homem supostamente no declínio da vida se transforme em um herói da resistência: nos últimos cinco anos, Dolphin correu em média 20 maratonas por ano para conseguir passar das 400 para as 500 maratonas.

O tempo cobra seu preço, e o ritmo do atleta vêm diminuindo. Sua prova de número 400 fez em cerca de cinco horas e meia; agora, apoiado em uma bengala, caminhou até o final em cerca de nove horas.

Foi uma jornada gloriosa. O terreno é belíssimo, um percurso que margeia o rio Yakima, cortando montanhas, mergulhando na água e escalando o morro. E Bob foi cumprimentado, abraçado, fotografado pro cada um dos quase 600 participantes da prova, que lá estavam para apoiá-lo, homenageá-lo e também para cumprir efemérides pessoais.

Eu completei a primeira maratona do resto de minha vida, algumas dezenas de 80 corredores debutaram na distância, enquanto outros completaram marcos como a maratona de número 100, 200, 300, 400 e 500, claro. Havia quilos de sócios do Marathon Maniacs, a começar pelo presidente, Steve Yee. Também participaram corredores dos clubes das 100 maratonas (dos EUA e do exterior) e dos 50 Estados. Enfim, uma festa de veteranos e veteraníssimos.

Entre todos, flutuava Bob Dolphin, feliz da vida. E Lenore, que recentemente ficou entre a vida e a morte, enfrentando uma série de complicadas cirurgias no coração, também vibrava, a tudo coordenando com mão de ferro. Os dois são exemplo vivo e límpido, mensagem clara que Bob Dolphin colocou em palavras: “Às vezes, quando a gente chega a uma idade avançada, 60, 70, 80 anos, fica em dúvida se pode continuar levando uma vida ativa.

A resposta é: nós podemos. Ele tem 500 maratonas para comprovar sua tese. 

Foto: Divulgação

 

Texto: Rodolfo Lucena/ Folha.com

 

Adicionar comentário