Beatriz de Frontin Werneck

 

Beatriz de Frontin Werneck nasceu no dia 8 de setembro de 1946, na Cidade da Guanabara, abrindo passagem à frente de sua irmã gêmea, Heloisa. Mais tarde, dois irmãos juntaram-se às duas.

Conheci Beatriz no colégio Notre Dame de Sion, onde estudamos juntas do então admissão até o fim do ginásio. Cada uma de nós tinha um número de matrícula, que identificava tudo o que portávamos. O dela era 1 – que pertencera à sua avó e lhe havia sido repassado – uma distinção e diferencial. Além da avó, a tia avó, madrinha e irmã do pai haviam também frequentado o mesmo colégio, todas “enfants de Sion”, que à época abrigava as filhas da elite do Rio.

Beatriz sempre foi disciplinada, organizada mas nem um pingo “careta” – e olhe motivos não lhe faltavam. Descendente direta do ilustre engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin, político e engenheiro brasileiro agraciado com o título de Conde pelo papa São Pio X, Senador, Prefeito do Distrito Federal e Deputado Federal, famoso pela duplicação em seis dias do abastecimento de água da cidade (por que não conseguem fazer nada parecido hoje em dia?). Como isso fosse pouco, modificou o cenário carioca chefiando a construção da Avenida Central, alargou a Avenida Atlântica, construiu as Avenidas Niemeyer e Delfim Moreira, dentre muitas outras obras, menos notáveis! Foi considerado, com muita justiça, patrono da engenharia nacional.

Apesar da familia ser tradicional, a mãe de Beatriz era formada e trabalhava em engenharia desde 1944, fato atípico à época. Já que o “sangue é mais forte que aágua”, mote da casa, Beatriz escolheu a arquitetura como carreira, saindo do Sion ao término do ginasial para cursar o científico. Nesta área, poderia criar coisas novas, sem confinamentos e ordens de terceiros. Não chegou a militar na área pois logo vieram dois filhos e uma filha, aos quais se dedicou de corpo e alma, numa relação que durou trinta e cinco anos, além dos tres de namoro e que já lhe rendeu como juros dois netos mais um a caminho. No abraço do miudo ainda com um aninho, derrete-se e encontra o que define como o melhor momento do dia. Se os netos realizassem o poder que têm, os avós estariam perdidos…

Férias e fins de semana eram curtidos na fazenda do avô, em contato com cavalos, cães, terra, vida ao ar livre, pés descalços e brincadeiras na lama. Era o oposto da sensação de opressão do semi internato e da redoma em que vivia na cidade, indo e vindo de ônibus escolar, sempre tudo muito monitorado e pré estabelecido.

Daí talvez os sonhos infantis de ser trapezista de circo, malabarista de cavalos, itinerante e sem regras, tudo mudando a cada cidade… Quando a gente cresce, compreende a origem das nossas fantasias. Uma pena pois o imaginário das crianças é um abrigo de sonhos lindos!

A imagem que tenho até hoje de Beatriz é de uma pessoa discreta, amável, divertida, sempre pronta a ajudar a resolver os problemas de terceiros com habilidade e sensatez. Tudo a ver com uma virginiana típica, de atitudes reservadas no que diz respeito a seu íntimo, apesar da disposição agradável, digna e observadora. Gozado é que Beatriz se considera “anarquista, orgulhosa e controladora”, o que efetivamente não tem nada a ver com sua personalidade mas sim à um excessivo rigor na análise de si própria. Acha difícil perdoar-se por erros que julga ter cometido. Por ser muito meticulosa, acaba faltando-lhe segurança em suas emoções e opiniões, julgando saber menos do que o necessário, o que efetivamente é um conceito falso. Essa busca eterna e íntima pela perfeição inatingível, coloca em segundo plano o lazer, não reservando tempo livre para o não fazer nada. Bem típico de uma geração à qual eram impostas obrigações e responsabilidade em excesso: “Primeiro a obrigação, depois a diversão” – em minha própria casa, eu ouvia isso sempre… Beatriz tinha que ser perfeita em tudo já que a irmã gêmea era deficiente, tendo problemas de saúde.

Como toda moeda tem duas faces, Beatriz sempre teve brinquedos por todos invejados já que a família, por viajar com constância aos Estados Unidos para tratar Heloísa, tinha oportunidade de trazer as últimas novidades neste campo.

O Diário de Anne Frank foi seu livro de cabeceira na adolescência. Acho que no Sion, naquela época, a maioria das meninas leu esta história dramática, conscientizando-se que a maldade humana não tem limites. Mais tarde, “O Universo Auto Consciente” de Amit Goswami e “O Código Penal Celeste” de Nilton Bonder foram as leituras cujo conteúdo e mensagem marcaram Beatriz.

Quando o casamento passou a não satisfazer e o ninho ficou vazio, buscou cursos para preencher o tempo. Interessou-se por Feng Chui e um mundo novo se abriu nas noções do pensamento chinês ( I Ching, Baguá), na física quântica, nas práticas orientais de autocura, resumindo: o mundo da energia e da bioenergia!

Como aos virginianos agrada aprender, sendo capazes de analisar as situações mais complicadas, Beatriz acabou iniciando uma pós graduação em terapias holísticas e naturais o que a fez perceber que, por mais que se harmonize um ambiente, a energia humana é mais forte e poderosa.

Meticulosa ao extremo e senhora de si, alega que jamais se adaptaria a um emprego onde recebesse ordens constantes. “De homem então, nem pensar!” Chegou a mudar a voz do GPS de feminina para masculina, “só para entrar à esquerda quando mandasse virar à direita!” Acha que nem Freud explica isso…

Amigo é aquele que está com você “apesar de” e não “porque”…. Essa a definição de amizade de Beatriz.

Como o virginiano tem obsessão por limpeza e justiça social, Beatriz afirma que o país que seria o último a visitar, em sua escala de prioridades, seria a Índia: incomoda-lhe  o caos no trânsito, as vacas sagradas, as castas…

As vacas… por que as vacas sagradas incomodariam alguém? Descobri que Beatriz tem devoção por carne, chocolate, queijo e feijão com farinha! Verduras e legumes são consumidos porque “noblesse oblige”.

De berço, Beatriz traz que “ninguém rouba ou destrói o que você tem na cabeça” e que as coisas valem pelo que são não pelas grifes que carregam.

“Sei pouco sobre muitos assuntos e alguma coisa sobre poucos, mas não confio que sei. Busco sempre saber mais e tenho medo de aplicar o que sei errado e prejudicar alguém.”

Quem acha que tudo sabe, não está aberto para aprender e na realidade nada sabe. Quem tem consciência de que nada sabe, percebe mais tudo o que tem a aprender, tornando-se o verdadeiro sábio, consciente da própria ignorância.

Como dizia Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Essa a filosofia de Beatriz, nossa entrevistada, que repassamos para os leitores do portal Amantes da Vida, como uma lição de humildade e consciência do quanto ainda todos nós temos sempre que aprender, independente da idade. 

 

Comentários 2

  • José Paulo Rocha de Oliveira01/11/2013 em 20:34

    Beatriz, meu nome é josé Paulo e sou português de Lisboa. Desde há alguns anos que tenho vindo a investigar a minha ascendência brasileira e encontrei 7 gerações de ascendentes no Rio de Janeiro até ao seculo XVIII. Sempre tive curiosidade em saber o que tinha acontecido aos descendentes dos Campos Amaral que permaneceram no Rio de Janeiro. Sabia da existência dos primos “Quinito” e “Conchita”. Hoje, por mero acaso encontrei numa página do jornal “A manhã”, de 20 de Outubro de 1943 o anuncio de casamento de Conceição Luciana de Campos Amaral, prima direita de minha mãe, com Haroldo Frontin Werneck. . Ao pesquisar Frontin Werneck fui dar a esta entrevista e desde logo me surpreendeu a familiaridade que reconheci no seu rosto. Depois li a entrevista e apesar de a sua mãe não ser identificada pelo nome, presumi que fosse a prima Conchita (sei que era engenheira)
    Se assim fôr nossas mães eram primas direitas e gostaria muito de partilhar o conhecimento que tenho da história dos Campos Amaral e ao mesmo tempo saber dos descendentes de Joaquim de Campos Amaral.
    Fico a aguardar com expectativa, notícias suas.

  • Maria Eugenia Horta Ramos12/06/2013 em 00:56

    Parabéns pela matéria com a Bia. É mesmo uma pessoa doce, bom coração, sempre pronta a ajudar. Espiritualizada ,tem sempre mensagens positivas e interessantes postadas no facebook! Beijo nas duas

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