Aulas de arranjos florais para a Mulher Maravilha

por Ana Boucinhas

Referindo-me especificamente à mulher contemporânea que alcançou o espaço de “mulher maravilha”, questiono se lá no fundo não bate, de vez em quando, uma certa nostalgia de um tempo que conheceu mas não vivenciou.

Foi ontem que as coisas mudaram e muitas mulheres, sobretudo as cinquentonas de hoje, ainda têm na lembrança a imagem de uma mãe dedicada apenas ao ” lar doce lar”.

Graças às frustrações em maior ou menor escala, as clássicas mães empurraram suas meninas para alcançarem a independência financeira.

Foi um tal de incentivar os estudos, de obriga-las a saírem atrás de trabalho, pois só assim deixariam de submeter-se a situações pelas quais elas passaram, patati patata…

Poucas – ou talvez nenhuma – das mães teve a sabedoria para ressaltar que um equilíbrio entre o “dolce far niente” e a seriedade nas funções a serem exercidas fora de casa, deveriam se conectar de vez em quando. Dolce far niente é força de expressão, pois elas não passaram em branco pelas obrigações inerentes às donas de casa.

As aprendizes da nova mulher levaram tão a serio os conselhos maternos que a coisa mais difícil é encontrar uma que não esteja atualmente assoberbada com tantos compromissos. Fazem e acontecem, mas realmente só engolem sapos do marido se houver muito amor e compreensão. Caso contrário, não vão repetir mesmo a frustração pela qual a mãe passou.

Mas, duvi-de-o-dó que uma vez ou outra ao menos, não gostariam de tirar a capa de mulher maravilha, jogar tudo para o alto e deliciarem-se com o resgate da essência da feminilidade que ficou pelo caminho…
Bom saber que existem refúgios onde podem ligar por umas horinhas, o doce sabor do passado. É só pensar o que gostaria de estar fazendo, ao invés da loucura do tumultuado dia a dia que naquele momento específico, está pesando uma tonelada. Que tal passar uma tarde na suavidade de uma aula de pintura em porcelana, por exemplo?

Entre tintas e pincéis, cercada por mulheres normais, que se danem os chefes, maridos, filhos, empregadas e agenda extra lotada. Desligar o celular e se permitir mergulhar num mundo que tornou-se tão distante do seu caminho é o ápice do prazer.

Um dos meus preferidos refugos, quando a mulher de mil e uma utilidades ainda estava encarnada em mim, era uma vez ou outra deixar o balde cheio de problemas e ir ao encontro de um balde cheio de flores. Que delícia descobrir uma habilidade que nem sabia que existia. Lá tinha eu tempo para me abastecer de flores e folhagens para produzir um maravilhoso arranjo? Chegar no estúdio da super estilosa florista Ana Foz e encontrar o material completo para a lição de casa do dia e sair de lá toda orgulhosa com o meu feito… Não havia cartão de crédito que superasse a satisfação. A tonelada ficava para trás e surpreendia a mim mesma ao chegar quase flutuando no meu lar doce lar.

Citei duas das diversas oportunidades que temos de vivenciar a leveza quando a barra pesa. As mamães não nos deram esta dica, mas a vida nos ensina a extravasar de vez em quando, as delícias da mulher sem a capa.

Diante da atual realidade, os próprios espaços que antes eram lotados por caprichosas rainhas do lar que dedicavam semanalmente uma tarde inteira a seu bel prazer, estão virando portos de tranquilidade sem compromisso. Estão sempre oferecendo workshops curtos para acolherem as estressadas mulheres contemporâneas.

Seria interessante pesquisar uns piers suaves, para resgatar de vez em quando, os perdidos no tempo prazeres femininos.
Fica a dica.

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