As portas que eu abri, nem eu mesma sei… Mas adoro descobrir!

Por Ana Boucinhas

O tempo realmente voa. Quando acompanhamos as alterações no dia a dia, podemos até pensar nesta “máxima” quando, por exemplo, um netinho que nasceu antes de ontem, completa 18 anos. Por segundos, vem à mente um filme de curtíssima metragem, quase um trailer. Imagens passam velozmente nos nossos pensamentos, mas nada que nos faça sair de órbita.


Mas quando vamos tocando a vida sem observar o que está rolando em torno e de repente, do nada, nos deparamos com uma realidade totalmente inimaginável, a coisa assume proporções estratosféricas e dá-lhe saírem  desordenadamente do passado, filmes que mais parecem as famosas séries televisivas. 
Exatamente essa foi a sensação que tive no Palácio dos Bandeirantes (sede do governo paulista) quando fui assistir a algumas palestras sobre um assunto que me interessava.  No lugar de destaque do auditório, estavam cinco cadeiras voltadas para a plateia, ao invés da clássica mesa com lugares determinados para as palestrantes e isso já me pareceu algo informal demais. Mas tudo bem. Ao lado de uma conhecida vereadora, nas cadeiras estavam sentadas quatro jovens com a mesma idade das minhas filhas. Elas é que teriam a palavra. Que furada, falei eu com meus botões. Mas já que estou na chuva… 

Na maior informalidade começam as apresentações e aí…  Deu-se início a um “Gracie & Frankie pessoal” que me distanciou por completo do objetivo. Todas as meninas eram Secretárias de Estado do Estado de São Paulo, cada uma na sua pasta !!!!!! 
Mal passou o espanto, entrou correndo na minha memória a primeira temporada: Lá atrás, estava eu sendo arguida na prova oral que fazia parte da avaliação para o ingresso na Faculdade de Direito do Mackenzie. 

Com olhar de menosprezo, um dos mestres que nos avaliava, indagava a cada uma das poucas meninas que concorriam, o que estávamos fazendo ali. Sob a ótica dos homens de então, inclusive a do meu pai, estaríamos ocupando bancos reservados a futuros chefes de família e ponto final. O machismo evidente encerrou-se ali pois já que nos sentamos no lugar dos meninos, passamos a ser olhadas como estudantes da lei.
Houve um plin plin rápido no meu “delírio” mas logo as despojadas calças compridas das Secretárias abriram a segunda temporada: Veio a minha ida ao Fórum como estagiária. Calça comprida, nem pensar. Era proibida a entrada de mulheres nestes trajes tão informais !!!!! Como, da noite para o dia, as ocupantes do mais alto escalão do Governo, em uma cerimônia no Palácio, trocaram os formais tailleurs pelos descontraídos trajes ???? 

Tentando prestar atenção aos super interessantes trabalhos que cada uma das Secretárias estava desenvolvendo, outra temporada invadiu sem licença a minha mente: Nesta, desfilavam os poucos Secretários de Estado  que então eu conhecia. Todos absolutamente formais nos trajes e nas palavras. A presença de uma aliança na mão esquerda era o máximo da  ostentação da intimidade de cada um. Já hoje, o histórico da vida pessoal  das competentes Secretárias, dava início às respectivas falas.


Sem a menor falsa modéstia, ao contrário, com exacerbada autoestima, me dei um Oscar por ter sido uma das desbravadoras que abriu as portas do futuro para estas jovens mulheres brilharem. Bati palmas para mim por um segundo, depois baixei minha bola e retomei ao interesse que me levou ao evento. 
Aplaudi com entusiasmo o programa a ser desenvolvido por cada uma das Secretárias de Estado, é claro. Mas saí como a gente sai de um filme interessante, onde trocar comentários sobre o desenrolar da história é um gostoso exercício de raciocínio. Quantos fatos, quantas lutas, quantas alterações comportamentais se passaram nas últimas cinco décadas enquanto eu tocava minha vida…


Pena que não antevi, lá atrás, o que iria acontecer. Ao invés de ter ficado raivosamente constrangida com o examinador, teria estufado o peito e dito: Vou ser Secretária de Justiça do Estado de São Paulo, ora. Mas, provavelmente, ele teria me reprovado por insanidade mental e eu não teria trilhado a carreira de Procurador e nem tido este choque de realidade merecedor de tantas observações. 


O tempo realmente voa. Mas não temos asas para acompanhar a sua velocidade, ainda bem. Só nos damos conta disso depois de caminharmos longamente pela vida e olharmos para trás.

Comentário 1

  • Zelia de C P Mendes09/04/2019 em 12:33

    Fantásticas comparações!
    Adorei o texto!
    A sorte que tiveram essas meninas é que tiveram desbravadoras como você e todas da geração!
    Parabéns!

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