Arlene Moreira

 

Data e local de nascimento.

Nasci em 01.12.1948, em Quebrângulo, Alagoas, terra de Graciliano Ramos, com o qual há um parentesco por parte de avó paterna. Sou a filha mais nova de Inês e Nelson, então farmacêutico em Quebrângulo.

Como decidiu pela profissão que exerce? Discorra a respeito de sua formação, por favor –  já sei que é muito diferente e ampla.

Quando pequena a vida dos animais me despertava interesse e vivia colecionando bichos, aranhas, moscas para alimentá-las, para desespero de minha mãe, colocando-as em vidros, os quais deixavam com a abertura coberta com gases finas… depois as soltava. Dava nomes, conversava com elas, coisas de criança, uma opção à recusa de minha mãe em criar cães, gatos ou passarinhos. Sempre gostei de desenhar, e empreender defesa e aconchego em favor de algum animal desamparado… Acho que essas coisas todas falam das opções que fiz na vida.

Também gostava de estudar e procurava encontrar meios de aplicar o que aprendia nas coisas do dia a dia. Das aulas de Biologia no colégio, por exemplo, levava as noções de aponeuroses, de tecido adiposo para a cozinha, na dissecção da carne dos bifes, a qual pedia à minha mãe que deixasse sob minha responsabilidade.

Enquanto ela supervisionava, eu ia dizendo: “viu? isso que você chama de nervo, na verdade é aponeurose”, ou então, corrigia “não é gordura, mamãe, é tecido adiposo”. E por aí, vai.  Estudei no Liceu Pasteur de São Paulo, na mesma época da Rita Lee. Quando chegou o momento de optar entre fazer o Científico ou Clássico, tinha muitas dúvidas. Gostava muito de Biologia, mas também de Literatura, Artes Plásticas, Matemática… Acabei por enveredar nas Ciências Biológicas e, afinal optei por fazer o vestibular em Medicina, sendo bem sucedida. Eu dizia que apenas Medicina me faria estudar fora.

Estudei na Faculdade de Medicina de Campos, Rio de Janeiro, numa época em que Campos ainda não haviam sido descobertos como pólo petrolífero e que as meninas lá podiam usar mini saia, mas nunca calças compridas. Meu pai não viu com entusiasmo a saída da caçula para estudar fora de casa e então tivemos que conversar, mas consegui convencê-lo. Não posso dizer que estudar fora foi fácil, mas uma fonte de crescimento. Conheci meu marido na faculdade, ele também estudante de Medicina, português,  cuja família também era domiciliada em São Paulo.

Voltamos para São Paulo ao final da graduação, casamo-nos e fizemos residência em Oncologia. Um período muito difícil, no qual tive um aborto espontâneo e extremo aborrecimento com o Médico Responsável pela Residência Médica, em decorrência dele. Ao final da Especialização meu marido e eu fomos fazer um estágio nos Estados Unidos: meu marido em Radiologia, e eu em Medicina Nuclear. Neste período entramos em contato com tecnologia de ponta em desenvolvimento na área de Diagnóstico por Imagem.

Nessa época eu estava grávida de nossa primeira filha, e também acabara de ser aprovada no concurso no Hospital dos Servidores do Estado de S. Paulo como médica do Setor de Medicina Nuclear. O contrato foi assinado e a necessidade do serviço era de um profissional que inteirasse a equipe pela manhã, das 7h00 às13h00 e eu assumiria após o nascimento da minha filha.

Trabalhando como profissional, como esposa, quais os prós e contras, se houver algum? (Amor e trabalho – como encarar esta relação?)

No nosso retorno, nasceu nossa filha. Meu primeiro pensamento foi que trabalhar a tarde seria o ideal, pois conseguiria deixar  organizado o que era necessário para o dia dela pela manhã. Não havia imaginado como em minhas opções eu colocaria o bem estar dela em primeiro lugar. Não foi possível conciliar essa oportunidade de trabalhar pela manhã e o cuidar de uma filha recém nascida, ante a dificuldade de encontrar alguém que me auxiliasse no cuidar dela.

Foto: Divulgação

Sempre pensei que esta era uma responsabilidade minha e delegá-la deveria obedecer a um critério muito exigente de minha parte. Repensei minha vida e ponderei. Achei que o valor que receberia como salário não compensava todo o desgaste a enfrentar todos os dias, e fui abrir mão da minha vaga. Resolvi ter meus filhos e esperar um pouco que eles crescessem para voltar à ativa. Esperei 06 anos. Mas não me arrependo dessa minha decisão, pois me poupou de sentimentos de culpa no desenvolvimento de meus filhos. Enquanto isso eu fui fazendo outras coisas que também eram de meu interesse e que eu deixara de lado e que me deram imenso prazer: um curso de graduação curta em Faculdade de Educação Artística (FAAP), uma Especialização em Homeopatia, participação em concursos e exposições (poesia, artes plásticas), uma especialização em Saúde Pública e fui voltando aos poucos, fazendo reciclagens na área de imagem em Medicina, estudando sempre, pois tudo evolui.

Tive três filhos e voltei a exercer quando os meninos todos estavam na escola, inclusive o caçula, que começou o maternal com 2 anos. Não sofri cobranças minhas, pois a decisão tinha sido muito bem pensada com exceção de minha mãe, que não achava justo ter estudado tanto e ficar aguardando esse tempo. Mas não era questão de justiça, mas de foro íntimo. Com o passar do tempo, tudo recomeçava. A mais velha fez Medicina; o do meio escolheu Direito, e o caçula, Farmácia.

O Direito para mim ocorreu por essa época, quando o filho do meio fez sua escolha profissional e se desculpava por não seguir a carreira dos pais, e eu lhe disse que era uma boa opção, que se eu tivesse alguns conhecimentos nessa área, talvez não tivesse me aborrecido tanto quando tive o evento do abortamento por ocasião da residência médica. Era uma carreira que faria. Então ouvi dele uma provocação: “Porque você não faz Direito agora?” E eu lhe respondi que já estava velha, ao que ele me disse: “que velha qual nada”. Lançado o desafio, fui encará-lo e prestar o vestibular para Direito na PUC SP. Fui aprovada, me formei. Mais  um pouco encerrava uma carreira e começava outra.

O que significou a aposentadoria para você, como médica?

Conforme relatei, na verdade a aposentadoria nada encerrou, pois que iniciei um novo tempo. Continuo ter essa formação pessoal, o diferencial é que o amadurecimento e a formação em Direito amplia a visão do como e do quanto é possível ser feito. Do quanto é importante investir na prevenção.

Tenho alguns (muitos) interesses e isso, acredito é o que nos mantém vivos. A minha formação em Medicina Nuclear aguçou meu interesse e cuidado nos assuntos que envolvem a construção, manutenção, funcionamento e acidentes em usinas nucleares, motivo pelo qual me levou a um MBA no assunto. Nossa realidade ainda não se presta a discutir essa problemática, muito embora ela tenha graves conseqüências, particularmente levando-se em consideração o local em que as nossas usinas nucleares foram construídas e os recentes acidentes ocorridos com os terremotos no Japão, que dão a proporcionalidade dessa gravidade.

Outro ponto de interesse é Mediação e Arbitragem, tendo em vista a lentidão dos julgados e o quanto de sofrimento acarreta para as partes que se vêem ligadas por anos, sem verem resolvidas as suas questões. E quando o são, já se passou tanto tempo e tanta mágoa, que o passado fica insepulto. Isso também me levou e me leva a outras especializações realizadas e trabalhos na área. Daí o trabalho com o psicológico, motivo pelo qual estou fazendo o Curso de Especialização em Terapia de Casal e de Família e concomitantemente terminando meu mestrado em Psicologia, Núcleo Família e Comunidade na PUC SP.

Como profissional em sua área de atuação atual, quais os seus planos para o futuro?

Quanto aos planos para o futuro, devo defender minha Dissertação de Mestrado no primeiro semestre de 2013 e terminar a especialização de Terapia de Casal e de Família no final de 2013.

Como profissional em sua área de atuação atual, quais os seus planos para o futuro?

A integração de minhas atividades, da vida profissional e vida familiar foram sendo feita passo a passo, entre diálogos e opções que devemos fazer no momento, ante as contingencias que se apresentam delegações oportunas ou não que fazemos e ponderações… relevando o que é importante, o que valorizamos, o que queremos e projetando cenários futuros e consequências no curto, médio e longo prazo das opções.

Como integrou suas atividades profissionais,  às responsabilidades familiares de mãe, gerindo uma vida movimentada? Quantos filhos você tem – idades e formação.

Tenho 03 filhos, a mais velha com 36 anos, o do meio com 33 anos e o mais novo com 32 anos. Hoje todos estão casados. A mais velha mora fora tem 03 filhos, é médica; o do meio tem um filho, é advogado; e o mais novo  é farmacêutico e ainda não tem filhos. Minha agenda é vista com parcimônia e tranquilidade, priorizando a qualidade das minhas ações.

Qual sua grande força motriz?

Digo que vivo um dia de cada vez, como se fosse o primeiro, mas também o último de minha vida. Procuro alegria nas pequenas coisas, que faço serem grandes momentos. Empenho atenção ao que faço, para poupar o desperdício do refazer.  E nessas ações me empenho por não fazer a outrem o que não desejo que façam a mim, pois não sei se haverá tempo para construir o perdão. Acredito que carregar mágoas faz sofrer e adoecer, além de ser uma mala muito pesada para se levar na vida.

Se voltasse atrás fosse possível, quais as alterações que faria?

Se voltasse atrás, não mudaria absolutamente nada.  Lembrei-me das indagações de minha mãe sobre meus cursos, ao que eu sempre respondia “sabe,  mãe, quero chegar à velhice olhando para trás e percebendo que fiz tudo aquilo que desejei, sem arrependimentos”… é isso que sinto.

Como a idade (se bem que você ainda é muito moça) repercute em você, física e mentalmente?

Repercussão da idade em mim hoje. A idade é uma coisa deliciosa. Gosto mais como sou hoje do que quando era jovem, pois aprendi a me conhecer, a me respeitar, a entender meu corpo e levar paz ao meu espírito. Para tudo há um tempo e estou feliz em viver esse hoje do jeito como pretendi viver.

Quais os seus hobbies favoritos?

Gosto de viajar com meu marido, particularmente revisitar lugares, de viajar para ver minha filha e meus netos, de escrever, de desenhar, de rever e ouvir as pessoas, de ouvir música, de apreciar paisagens, descobrir a beleza interna que se esconde atrás do humano das pessoas, mas também gosto de ficar só e escrever ou desenhar.

Que tipo de música você curte? Costuma ouvir música com que constância?

Curto música clássica, mas também Bossa Nova, Rita Lee, Marina, Maria Bethania, Ivan Lins, Frank Sinatra…

Qual sua cor predileta?

Todas que combinem com alegria de viver.

Se fosse colocar em ordem de preferências, como classificaria seus hobbies?

Não consigo classificar, são os momentos que contam e pedem o fazer daquele momento.

Você curte viajar? Praia ou campo, frio ou calor?

Gosto mais de estar no lugar do que da própria viagem, pois ela implica no meio de transporte necessário para o deslocamento. Por exemplo, se é por via aérea, a espera nos aeroportos, os atrasos dos vôos podem nos roubar um pouco do ânimo, e ensejar o cansaço, mas o chegar é sempre muito bom. Prefiro campo à praia e frio ao calor.

Um epitáfio/conselho de vida…

Faça do seu hoje a construção daquilo que você gostaria de partilhar e se lembrar amanhã, como se fosse o primeiro dia de sua vida. Podemos ser participantes da mudança se conseguimos começar a mudar. Na vida, vivemos um dia de cada vez e podemos vivê-lo bem a cada novo dia, na medida em que sentimos que somos parte do universo e o que nossas ações, recursivamente voltam para nós. O envelhecer é apenas um cronômetro que marca um tempo. O crescimento individual foge dessa marcação e pode mostrar o humano ou o divino que nos habita.

 

Comentários 2

  • ceneide m o cerveny19/12/2012 em 22:36

    Uma pessoa linda mirando-se no espelho da vida!

  • maria do rosario19/12/2012 em 15:12

    Entrevista maravilhosa e dou meu testemunho de que ela é essa pessoa maravilhosa mesmo

    Maria do Rosário (cunhamã) cunhada irmã!

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