Ana Lúcia e Rafael Garcia

 

O navio Augustus foi o local escolhido pelo destino, para promover o encontro dos dois jovens músicos – a pianista brasileira Ana Lúcia Altino e o violonista chileno Rafael Garcia.

O Brasil beneficiou-se do feliz encontro, pois os hoje maduros e consagrados artistas, difundem a eterna música clássica em seu território através do excelente projeto Virtuosi.


AV – Voltando no tempo, quais as experiências mais marcantes que tiveram no exterior?

Na verdade precisamos dizer que estivemos por duas vezes residindo no exterior. A primeira experiência foi quando ainda jovens recebemos bolsas do Governo da Alemanha para estudar na Academia Superior de Música de Detmold. Nós nos conhecemos no navio e em Detmold, alguns meses depois, nos casamos. Vivemos durantes quatro anos na Alemanha e nosso primeiro filho ali nasceu. Voltamos quando ele tinha seis meses de idade. Nós nos sentíamos deslumbrados especialmente com o que vivenciamos na escola. Tudo nos surpreendia desde as condições que a escola oferecia aos professores excelentes, aos concertos, aos colegas. Rafael estudou com o grande violinista húngaro Tibor Varga e eu com o pianista Klaus Schilde. Vivíamos música o dia inteiro, estudávamos cerca de 12 horas por dia. Foi uma experiência intensa e certamente mudou toda nossa concepção com relação à música principalmente ao ensino da música. Acreditamos que o momento mais marcante musicalmente foi assistir a Filarmônica de Berlim no seu teatro em Berlim tendo Claudio Abbado como regente e Dietrich Fischer-Dieskau como solista. Foi inesquecível!
Anos depois, já com os seis filhos debaixo do braço, fomos para os Estados Unidos. Essa viagem aconteceu não por acaso, mas sim para acompanhar um dos filhos Leonardo, violoncelista, que havia recebido como prêmio de um concurso nacional uma bolsa para estudar na Manhattan School of Music. Ciente de que não deveríamos deixar um filho de 14 anos ir sozinho para o exterior, resolvemos ir juntos com ele. Para isso eu me inscrevi junto a Capes para realizar curso de doutorado em piano na Boston University. E assim foi. Ficamos nove anos em Boston e as experiências nessa cidade foram imensas. Com seis filhos e já com mais de 40 anos, fazer um doutorado provavelmente já é uma experiência e tanto. Fazer esse doutorado com seis filhos, com idades de 5 a 17 anos, tendo que tomar conta da casa e estudar, sinceramente foi uma experiência e tanto. Rafael foi professor do New England Conservatory, os filhos se desenvolveram fantasticamente e hoje três vivem no exterior (Dinamarca e Estados Unidos), um em São Paulo e dois em Recife. Criamos um festival de música na cidade de Lexington perto de Boston e durante três anos fizemos esse festival acontecer. Rafael dirigia a Lexington Youth Chamber Orchestra. Um mundo de experiências e de novidades para todos nós. Destacamos entre outros mil momentos a apresentação de Leonardo, nosso filho, com a Boston Symphony como vencedor do concurso Jovem Solista. Uma emoção só!

AV – Entre estudos, concertos, recitais, seis filhos foram sendo trazidos ao convívio. Como era conciliar a dedicação a música com o bonito grupo familiar?

Essa pergunta sempre foi feita especialmente a mim, como mulher, dona do lar. Na Universidade de Boston a pergunta era “como eu conseguia lidar com a casa, os filhos e o doutorado?” Tudo é uma questão de organização. Fazer cada dia uma coisa e não ser “peru” – não morrer de véspera. Cada coisa ao seu tempo. Os filhos cresceram com a nossa vida, acho que nós impomos a eles o que fazíamos e o que gostamos de fazer. Assim foi mais fácil eles assimilarem e aceitarem todas as mudanças, os estudos, os concertos, as viagens, etc. Quando eles eram pequenos e nós morávamos ainda na Paraíba, todos iam para o Departamento de Música estudar. Era uma diversão para eles. Frequentavam os concertos pensando no jantar que teriam depois de cada espetáculo e assim eles foram se acostumando a viver o que nós vivíamos. Hoje temos dois filhos que são músicos profissionais, um terceiro que estudou muita música, mas trabalha com design e a música tem um papel fundamental na sua criatividade, uma filha que trabalha com música – é produtora de festivais de música “indie” – e mais dois filhos que se não abraçaram a carreira de músico são excelentes ouvintes e participam de todos os nossos festivais e eventos com prazer. A casa parecia um conservatório, mas esse convívio foi extremamente saudável e benéfico.

AV – Aliás, eles herdaram geneticamente o talento musical?

Acreditamos que todos herdaram a veia musical e/ou artística, cada um a seu modo. Profissionalmente somente os dois mais velhos Rafael e Leonardo. Rafael é hoje o principal viola da Orquestra Sinfônica de Odense, Dinamarca, e professor dos Conservatórios de Música de Odense e Malmö, Suécia. Já Leonardo estabeleceu-se nos Estados Unidos e é professor na Universidade de Memphis, Tennessee. Todos os dois mantém uma carreira como solistas e participam efetivamente dos festivais Virtuosi.

AV – Antes de se fixarem em definitivo no Brasil, plantaram sementes também nos EUA?

Bem, a vida nos Estados Unidos não foi fácil, mas foi bem produtiva e muito rica musicalmente não somente para nós – eu com meu doutorado e Rafael como professor do New England Conservatory – como para os filhos. Durante nossa estadia Rafael principalmente teve um importante desempenho como professor. Era muito querido por sua competência e ensinava violino e música de câmara. Como disse anteriormente criamos a Lexington Youth Chamber Orchestra e o Lexington Music Festival. Foi uma época bonita e tivemos a oportunidade de realizar muita música.

AV – No namoro com o Brasil, como se tornou spalla da Orquestra Sinfônica de São Paulo?

Fomos convidados pelo violinista Ayrton Pinto que era o spalla da OSESP na época que Eleazar de Carvalho estava reorganizando a orquestra. Rafael foi como Assistente de spalla primeiro e eu como pianista da orquestra. Dois anos depois Ayrton Pinto voltou para Boston, eu e Rafael fomos então convidados pelo Maestro Eleazar a exercer o cargo de spalla, função que exerceu até sair para a Paraíba.

AV – Sob qual batuta você, Ana Lúcia apresentou-se como solista da orquestra?

Souza Lima, Isaac Karabtchevsky, Eleazar de Carvalho, Diogo Pacheco, Carlos Veiga, Pierre Colombo, Martin Stephani (Alemanha), Gösta Nilsson (Suécia), Rafael Garcia.

AV – Quando o amor maior tornou vocês amantes do Brasil?

Essa eu respondo. Eu sou brasileira. Mas para falar a verdade estamos no Brasil principalmente por causa de Rafael. Ele é muito mais brasileiro do que eu. Diz ele que se apaixonou pelo Brasil quando viu Garrincha jogar no Chile! E quando chegou ao Rio no navio Augustus ele apaixonou-se pelo cheiro da cidade e decidiu que era aqui que ele queria morar!

AV – O amor a arte tem levado vocês ao máximo empenho em difundir a música clássica no Brasil. Qual foi o projeto inicial?

Nossa, acreditamos que o primeiro projeto relevante nosso foi o movimento musical que conseguimos implantar na Paraíba através da Universidade Federal da Paraíba e do Governo do Estado. Criamos o Departamento de Música da UFPB, o Curso de Bacharelado em Música, a Orquestra Sinfônica da Paraíba em convênio com o governo do estado, a Orquestra Sinfônica Jovem e vários grupos de câmara da Universidade. Implantamos um movimento musical que chamou a atenção do país na época, anos 80. Tivemos que importar 75% dos músicos e professores que logo formaram suas crias e o quadro foi gradualmente mudando para mais brasileiros do que estrangeiros. Até hoje o estado da Paraíba é considerado um celeiro de músicos.
Em 87 fomos para os Estados Unidos e ao retornarmos fundamos a Orquestra Filarmônica Norte/Nordeste tendo como Diretor Artístico o Maestro Aylton Escobar e logo em seguida o Virtuosi.

AV – Como surgiu o hoje tradicional e reconhecido internacionalmente Virtuosi?

Ao voltarmos dos Estados Unidos encontramos um cenário musical muito triste no nordeste. Era necessário fazer alguma coisa para acabar com esse tédio. Ao mesmo tempo nossos dois filhos músicos permaneceram nos Estados Unidos. Então, achamos que criando um festival tínhamos a possibilidade de trazê-los para passar o Natal com a família. O I Virtuosi foi realizado em 1998 com apenas dois concertos e presença de alguns poucos artistas internacionais e nacionais, naturalmente incluindo os filhos. A idéia deu certo. A partir dai o festival só fez crescer. Este ano vamos comemorar 15 anos de festival com uma semana de atividades, mais de 40 espetáculos, master classes, e palestras. E aos poucos o festival foi ampliando seu raio de ação e hoje temos cinco festivais Virtuosi por ano sendo um no Brasil que acabou de realizar sua 8ª edição, o IV Virtuosi de Gravatá e o VIII Virtuosi na Serra que acontecem em julho, o Virtuosi Século XXI em outubro e o XV Virtuosi – festival internacional – que acontece em dezembro. Cada festival tem sua particularidade: o Brasil focaliza a música brasileira; o de Gravatá está ligado a um curso de aperfeiçoamento para jovens instrumentistas, o Século XXI dá ênfase à música contemporânea e o internacional convida artistas internacionais principalmente e mantém um evento mais diferenciado.

AV – Como é a aceitação do público frente a música erudita, na capital do frevo e do maracatu?

Apesar do frevo e do maracatu, o VIRTUOSI tem conseguido cativar um grande publico. Basta ver o número de festivais que hoje realizamos para entender que existe um público bastante significativo, que gosta da música de concerto (clássica ou erudita), e principalmente uma grande maioria de público jovem. Os artistas que participam dos festivais ficam encantados com o publico tão grande e tão caloroso. Claro que se não tivéssemos esse publico não tínhamos como manter e crescer nosso trabalho.

AV – O projeto é tão espetacular, que se estendeu rapidamente pelo norte e nordeste. Em quantas cidades existe o Virtuosi atualmente?

Hoje nós levamos o Virtuosi além de Recife para Olinda, Gravatá, Garanhuns, João Pessoa e Belém do Pará. Estamos tentando crescer a cada ano e esperamos breve chegar ao sul!

AV – Quantas apresentações Virtuosi já realizaram desde sua criação até o momento?

É quase impossível contar. Teríamos que pegar todos os programas para fazer um levantamento. Por alto – o Virtuosi Brasil realiza uma média de quatro concertos cada vez, que multiplicado por oito são 32 concertos pelo menos. Gravatá faz cerca de 12 concertos multiplicado por 4 – são 48; Garanhuns faz 10 concertos cada ano que multiplicado por 8 são 80 concertos. O Virtuosi faz cerca de 30 espetáculos por evento multiplicado por 15 são cerca de 450 concertos. Estimativa de mais de 600 concertos – isso sem contar outros projetos que não se chamam “Virtuosi”.

AV – Como batalhadores da cultura musical que são, existe evento paralelo durante o Virtuosi?

Sim. Nós realizamos além dos concertos que são divididos em séries de música de câmara, recitais, concertos sinfônicos, master classes para estudantes da região, palestras como o Virtuosi Diálogos que objetiva reunir compositores e músicos para discutir a música brasileira atual. Uma vez tivemos a felicidade de realizar a primeira maratona musical com 24 horas ininterruptas de música chamada Virtuosi pela Paz. Foi um sucesso total. Até DJ e VJ tivemos a partir de meia noite até a madrugada. Muito bom mesmo.

AV – O pianista e regente João Carlos Martins, assim se referiu ao Virtuosi – Quando iniciei o primeiro ensaio, pensei que estava na Áustria, Alemanha ou Estados Unidos, pois não conheço outro lugar no Brasil que reúna músicos tão qualificados de vários países.  Como é feita a seleção para merecer tamanho elogio?

O Virtuosi funciona como uma grande network. Isso por causa de nossos filhos que são músicos. Um vive na Europa e outro nos Estados Unidos. São muito bem relacionados e através deles temos acesso a grandes artistas que adoram participar do festival – adoram o sol e adoram o clima de grande família e de muita boa música. Assim que é fácil trazer grandes músicos para participarem do festival. Por isso João Carlos ficou tão surpreso quando veio pela primeira vez. Diga-se também que nós por sermos músicos e termos vivido sempre no meio musical ativamente nós também temos nosso conhecimento.

AV – Existem projetos pela frente para o Virtuosi? O sul e sudeste estão se sentindo preteridos.

Gostaríamos muito de chegar ao sul e sudeste. Um dia a gente chega. Mas achamos muito importante que o movimento seja aqui no nordeste que é muito mais carente e naturalmente muito mais difícil de realizar. Estes têm para realizar ainda quatro festivais. Dois durante o mês de julho, um em Gravatá e outro em Garanhuns, um em outubro em Recife e no final do ano o XV Virtuosi que acontece em Recife, Olinda, João Pessoa e Belém.

AV – Quando e em que cidade se dará a nova próxima apresentação?

Gravatá e Garanhuns. O festival de Gravatá será de 13 a 22 de julho e Garanhuns de 17 a 21 de julho. Gravatá recebe entre outros artistas João Carlos Martins além de outros grandes artistas internacionais e nacionais.

 

 

Comentários 3

  • Lucy Saavedra Bottenfield01/06/2014 em 18:11

    Felicitaciones a Rafael y AnaLucia, gracias por el gran esfuerzo en propagar la música clásica y así terminar con la ignorancia sobre ella, y también por hacer un mejor Brazil. Su gran trabajo será pagado viendo la nueva generación tocando instrumentos tam bien como ustedes dos lo tocan….Dios los bendiga con mucha salud y felicidad para que sigan propagando esta maravillosa música clásica. Lucy

  • Girley Brazileiro01/06/2012 em 11:45

    Conheço o Virtuosi desde a primeira edição. Amo de coração essa promoção e essas admiráveis figuras – Rafael e Ana Lucia – aos quais Pernambuco deve uma eterna gratidão, porque eles fazem deste estado um reduto diferenciado de arte musical.
    Ave! Rafael e Ave! Ana Lucia

  • Elizabeth Valente31/05/2012 em 22:14

    Temos que agradecer por termos pessoas tão iluminadas, idealistas, batalhadoras e sensíveis que se interessam em investir na cultura, principalmente às pessoas mais carentes desse nosso Brasil.
    Com pessoas como essas tenho esperança de um Brasil melhor.
    Parabéns a esse casal e a vcs por divulgarem esse belíssimo trabalho.

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