Amancio Ortega

 

Nem nos seus mais delirantes sonhos, Amancio Ortega Gaona, o office-boy de uma camisaria em La Coruna poderia imaginar que aos 76 anos de idade seria o primeiro homem mais rico na lista da  FORBES EUROPA/2014.

A fortuna atualmente está pulverizada em centenas de empreendimentos e propriedades que por si só, não trazem qualquer notoriedade ao bilionário, mas no momento em que é identificado como o fundador da ZARA, a coisa muda de figura e Ortega passa a ser mais conhecido do que o Papa, pois o mundo ficou pequeno para abrigar tantas lojas suas. Poucos podem ter a curiosidade em conhecer a origem da marca, mas todos se surpreendem em encontrar as mesmas peças ao mesmo tempo em todas as lojas espalhadas pelo mundo.

Foto: Divulgação

Vamos dar umas pinceladas na história da construção desta cadeia, parte do império da Inditex, e de sua propriedade.

Na tal camisaria, o garoto já definiu que seu caminho seria na área têxtil. Amancio e a namorada Rosalia Mera também menina, saíram do emprego e começaram a produzir em um escuro galpão peças que iam direto para países da Europa. Percebe-se que o homem já ficava “antenado” na globalização que viria. Em 1975, já casados, resolveram partir para o varejo, mas com o diferencial que perpetuaria a marca. Iriam oferecer por preços infinitamente menores a moda do momento usada pelas endinheiradas. Claro que a preocupação com a qualidade e a confecção das peças deveria ser levada muito a sério.

Em um modesto, mas bem localizado estabelecimento, montaram em La Coruna a primeira loja que deveria se chamar Zorba, mas como o nome já estava registrado, eles fizeram a opção pela segunda escolha. Assim, em 15 de maio de 1975, a loja inaugurada, ostentava em sua fachada o nome ZARA pela primeira vez. Aliás, super apropriado, pois em árabe significa mulher de origem nobre. A proposta “fast fashion” foi tão bem aceita que em menos de uma década a Espanha já estava infestada por filiais.

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Percebendo que tinham acertado na mosca, resolveram criar uma Empresa chamada Inditex (Indústria de Diseno Têxtil S/A) e através dela, partiriam com a ZARA para o exterior. Em 1978, a vizinha cidade do Porto foi a primeira das quase oito mil cidades que vieram a seguir. Naquela época já tinha nascido o filho Marcos que tinha problemas mentais, o que levou Rosalia a tirar a mão da massa. Mas claro que tendo continuado como a segunda acionista majoritária da Inditex, acabou virando no início do século XXI, a mulher mais rica da Espanha.

O aumento crescente da riqueza nunca afastou Amancio de suas origens de filho de ferroviário. Enquanto em plena atividade, o dono da empresa, dirigindo seu próprio carro e sempre vestido como funcionário, era o primeiro a chegar e o último a sair. Apesar de ter pendurado as chuteiras formalmente, quem quiser ver o bilionário ao vivo e a cores hoje, é só aparecer no piso das fábricas e esperar um pouco que ele aparece. Mas nem pensar pedir uma entrevista ou mesmo tirar uma foto. Ele é avesso a holofotes. Por incrível que pareça, Amancio nunca deu o ar da sua graça em nenhuma inauguração.

Mas mesmo retraído socialmente achou tempo para envolver-se com a responsável de uma das lojas e com ela teve a filha Márcia que coitada, só foi reconhecida aos 18 anos. Mas tudo bem, pois pelo que consta será ela a herdeira da cadeia ZARA.

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Pinceladas dadas, vamos ao que interessa. Como é que esta incrível logística permite a celeridade na criação, produção e espetacular distribuição? O primeiro pulo do gato consiste em não depender de fornecedor. A empresa é responsável pela produção de todas as peças.

O segundo diferencial é a concentração de todo o processo no mesmo local. Sempre em La Coruna, mas na província de Aleixo, em um terreno de 600 mil metros quadrados, 16 fábricas são interligadas através de 210 km de trilhos ao quartel general, onde tudo é resolvido. De lá, escoa 50% da produção. Claro que as peças básicas e atemporais, que correspondem a 35% da produção são feitas na Ásia e a parte restante sai de fábricas pequenas no exterior que atendem demandas locais, sempre sob as determinações dadas da Espanha.

Mas a grande surpresa mesmo é no quesito criação. A ZARA não cria moda, ela capta o que a consumidora quer usar e oferece a preços bons. Os designers não são pagos para criar nada. Estão ali para levarem ao papel as dicas já mastigadas que receberem. Regularmente as lojas passam para o QG informações sobre os grandes desfiles, sobre trajes usados por celebridades, sobre tendências que observam nas ruas, sobre destaques em revista etc. Cruzando as informações, profissionais definem rapidinho quais e quantas peças serão produzidas. Entre a definição dos modelos e a colocação deles nas lojas, passam-se no máximo 15 dias.

Na distribuição então, a ZARA dá show de bola. Pedido feito, pedido entregue no máximo em 24h. Quando a mercadoria tiver que ir literalmente voando, o prazo de entrega passa a ser… 36 horas. Eficiência assim está para existir. Está explicado o porquê do modelo ZARA serve de estudos nos bancos universitários.

Outra característica superinteressante da administração ZARA é que apenas 5% do faturamento são aplicados em marketing e assim mesmo só para serem anunciadas e divulgadas as novas inaugurações. As clientes precisam conhecer onde vão bater o ponto em média, 17 vezes por ano. Não é a toa que a turma do QG escolhe a dedo o ponto mais badalado da futura nova loja. Só para efeito comparativo, na concorrente tipo HMs, o retorno limita-se a 4 vezes /ano.

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Dos produtos dirigidos ao universo feminino, a ZARA ampliou seu leque e atualmente além de roupas masculinas e infantis, circulam pelas suas prateleiras sapatos e acessórios, em alguns espaços especiais, são expostos os objetos da ZARA HOME.

Firmou-se como tradição, a alteração do visual interno das lojas a cada oito anos. New York prepara-se para ser o novo cartão de visita a ser copiado por todas as filiais. A partir de 2009, alguns países já começaram a se beneficiar com o comércio on line da ZARA. O estonteante sucesso da cadeia acaba provocando ações jurídicas que podem desestabilizar a empresa. Claro que no QG está incorporado o corpo jurídico para resolver os problemas da área.

Mas cá entre nós, quando o conjunto de seda Armani usado pela Princesa Kate num evento público, por exemplo, aparece nas prateleiras das lojas quinze dias depois na versão viscose, o Giorgio deve ficar muito irado mesmo. Claro, sua equipe caríssima passou de 6 a 8 meses bolando modelos, apresentando em desfiles até chegar a ter a honra de vestir a garota real e lá vem a folgada da ZARA oferecer rapidinho o mesmo “lay out” às plebeias de cem países. Dá raiva, mas acaba por aí, pois até a matéria ser julgada, o tal terninho já foi trocado por saias envelopes ou algo assim e o lucro com a venda da alegada cópia com certeza foi maior do que a eventual multa.

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Aqui no Brasil a ZARA também já foi acusada de usar o trabalho escravo, de peruanos e bolivianos. A equipe jurídica entrou em ação e mesmo provando ser sido de terceiros a responsabilidade direta pelo vergonhoso fato, acabou disponibilizando milhões em ações preventivas e corretivas. O próprio Ministério Público reconheceu que a ZARA com esta atitude estava comprovando a alegada responsabilidade social. Para evitar aborrecimentos congêneres, trataram de implantar sempre no QG, uma equipe de auditores que saem pelo mundo vendo como andam as coisas.

Por outro lado, o beneficio que a ZARA leva para as indústrias têxteis não está no gibi. Ao contrário das duas coleções anuais das grifes que vendem para meia dúzia de clientes, ela apresenta às milhares de consumidoras suas, quatro coleções/ano.

Diante das pinceladas, pode surgir a curiosidade quanto ao destino a ser dado ao resto da fortuna que, diga-se de passagem, não causa o menor interesse em conhecer. Mas aos filhos, o suficiente para que vivam dignamente e que aprendam a valorizar a importância do trabalho suado. A mãe da Márcia que me perdoe, mas ao meu romântico ver, o fato de Amancio reverter a fortuna em doações à sua própria Fundação e à Fundação Paidéia de sua primeira mulher, sela com “chave de ouro” a relação de amor com a hoje também idosa Rosali.

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