Alimento dos Deuses!

 

Dia Mundial do Pão

Há pessoas que são varadas por chocolate, outras por massas, por queijos, por vinhos e assim por diante. Uma barra de chocolate é algo tentador, ainda mais se vier com adicional de marshmallow ou avelãs e amêndoas, mas o que realmente me tira do sério são os pães. O cheiro de uma fornada na padaria faz com que eu fique na ponta dos pés, deliciando-me e antegozando o prazer de sentir a casquinha crocante e quente entre os dentes! Coisa dos deuses – que dispensa acompanhamento, que se basta.

Sob as mais variadas formas, receitas e nomes, o pão é conhecido desde tempos imemoriais. O trigo foi cultivado pelo homem antes mesmo do advento da história escrita. Os antropologistas acreditam que os grãos seriam inicialmente coletados e estocados para uso posterior, sendo simplesmente mascados. Havia trigo na Mesopotâmia e no Egito.

Foto: Divulgação

Os grãos úmidos germinavam e produziam brotos e mais sementes. Os primeiros pães foram feitos a partir de grãos e sementes selvagens para em seguida surgir a ideia do plantio e maceração até a feitura da farinha misturada com água. A massa era moldada em bolos, secos ao sol e cozidos no carvão. Há evidências inclusive que os aborígenes australianos conheciam este método.

Acredita-se que a fermentação foi descoberta provavelmente ao acaso, cerca de 1.000 anos antes de Cristo. A massa teria sido deixada de lado o tempo suficiente para atrair esporos selvagens, causando fermentação. As bolhas gasosas presas na massa incharam e fizeram-na crescer e a técnica espalhou-se por toda a região mediterrânea. Daí para frente começaram as variantes…

Os egípcios desenvolveram um forno cilíndrico de argila para aprimorar a técnica. Os romanos aprenderam a secar a massa azeda, mergulhá-la na água e posteriormente usá-la na feitura de novo pão, para obter um resultado melhor – o fermento de pão.

Civilizações como os incas, ameríndias, africanas e indús todas desenvolveram técnicas próprias para aproveitamento dos grãos, surgindo as tortilhas, chapatis, naans, mealies e uma infinidade de outros. Em Roma o pão era mais importante que a carne e a renda per capita eram lastreada na distribuição de grãos entre o povo, sendo que houve época em que o próprio governo detinha o controle das padarias de então.

Foto: Divulgação

Considerando que o processo de moagem do trigo era caro, avaliavam-se as posses de um grupo pela cor do pão que consumia – quanto mais branco, mais caro e, portanto mais rica era a família.

Hoje, ocorre exatamente o contrário já que a farinha integral é o ingrediente mais dispendioso e procurado tanto pelo sabor quanto pela qualidade nutricional. O povo judeu durante a Páscoa só consome pão ázimo, sem fermento, simbolizando a fuga para o Egito, quando o povo não teve tempo de esperar a massa fermentar e crescer. Já dentre os muçulmanos houve época em que o pão não era comercializado, por ser uma dádiva de Allah – só poderia, portanto ser objeto de doação ou escambo.

Na Idade Média, o pão era o único alimento acessível aos pobres e ninguém desconhece a famosa frase de Maria Antonieta durante a
Revolução Francesa quando lhe informaram que o povo não tinha pão para comer: “Que comam bolos!” – demonstrando a total ignorância da situação precária das classes trabalhadoras.

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Outro fato histórico relevante ligado ao pão: em 1666 o início do grande incêndio que destruiu todos os moinhos e indústria correlata em Londres é atribuído a um padeiro. Não nos esqueçamos que os primeiros deportados para a Austrália, que iniciaram a colonização eram indivíduos banidos em função do crime de ter roubado… pães! Sentenciados ao desterro, tal a importância deste alimento!

Hoje, tem-se uma variedade quase infinita de tipos de pão e como no passado, continua sendo considerado mais que um simples alimento tanto que lhe é dedicada uma data especial, comemorada dia 16 de outubro.

Em São Paulo, pode-se curtir essa delícia quase que em cada esquina, muitas padarias oferecendo mais que a tradicional média com pão, dupla campeã de consumo. Dependendo de onde estiverem não deixem de visitar a “Le Pain Quotidien” no Itaim, a “Le Pain” em Pinheiros, a “Julice Boulangère” em Pinheiros, a “Maria Louca Casa de Pães” no Ipiranga, isso só para começar…

E, finalizando, enquanto saboreio um delicioso brioche, releio as palavras de Alexandre Dumas, escritor francês (1802-1870): “Em Paris, hoje, milhões de toneladas de pães são vendidas diariamente, feitos durante a noite anterior por aqueles seres
estranhos, seminus, que vislumbramos pelas frestas das janelas dos porões, cujos gritos aparentemente selvagens flutuam daquelas
profundezas e sempre causam uma impressão dolorosa.

Pela manhã, vêem-se estes homens pálidos, ainda brancos de farinha, carregando uma bisnaga debaixo do braço, saindo para descansar e reunir novas forças para o árduo e útil trabalho quando a noite cair mais uma vez. Eu sempre valorizei enormemente estes bravos e humildes trabalhadores cuja labuta noturna produz esses pães macios, mas ao mesmo tempo crocantes que mais se parecem com bolos”.

Comentário 1

  • Suely16/10/2012 em 09:16

    Que matéria mais interessante.Adorei!

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