Adauto Chinis

 

AV – Já que você foi apresentado primeiramente como expert no universo da moda, o que despertou em você o interesse por este glamoroso mundo?

AC – Desde muito cedo a moda esteve próxima de mim. O contato aconteceu com minha mãe que era uma das filhas mais velhas de uma família numerosa de italianos emigrados da Toscana. Ela tinha este talento que foi sendo desenvolvido em função das necessidades da casa.

Quando chegaram ao Brasil se instalou no noroeste paulista como fazendeiros de café e as condições da época restringiam muito o acesso às cidades e aos bens de consumo industrializados. Tudo era produzido na fazenda, inclusive as roupas que vestiam a todos, treze pessoas. Esta qualificação imposta pelas necessidades do dia a dia virou uma profissão futura para minha mãe que era uma pessoa obstinada para o trabalho. Este mundo sempre esteve próximo de mim o que me fez olhar para aquilo como uma possibilidade de tornar uma atividade doméstica uma possibilidade real de negócio. Obviamente que eu tinha aquelas condições iniciais tão imprescindíveis para tornar a confecção de roupas um business de moda.

Foi assim comigo, para mim não foi uma ausência de opções, foi uma escolha. A coisa nunca foi posta como uma via de mão única até porque eu tinha outras áreas de interesse em humanidades e ciências exatas, que me fascinavam igualmente e tumultuavam os caminhos da minha escolha. Decorreu naturalmente com muita liberdade para escolher.

AV – Quais foram os degraus escalados para chegar ao Prêt-à-porter do John Galliano e á Maison Dior de Paris?

AC – Os degraus foram muitos. Desde catorze anos fui estudar em um curso técnico sustentado por uma holding francesa da indústria de têxteis onde trabalhava meu pai. Fiquei três anos aprendendo com se faziam os fios para confecção dos tecidos. A coisa toda foi ocasional. Estava lançado ali o prenúncio de algo que eu desconhecia. Meu próximo passo foi estudar Moda em um curso de estilo que me qualificava a exercer a profissão em uma época em que não existiam as faculdades de moda e a Moda no Brasil ainda engatinhava como profissão de mercado.

Fiz uma série de outros cursos relacionados a Historia Moda e um especificamente de Moulage ministrado por um professor italiano a quem eu presto sempre uma homenagem, Tino Adamo, professor da escola de moda em Roma, radicado no Brasil foi quem abriu os meus olhos para os caminhos do Pret à Porter e da Alta Costura. Foi por meio dele que eu fui apresentado à Marie Roukie, diretora do Studio Berçot em Paris que me convidou para fazer o que seria hoje uma espécie de MBA da Moda.

Foi assim que eu desembarquei em Paris com toda minha vida em duas malas, uma de roupas e outra de livros. Na época eu havia feito apenas trinta dias de Francês com uma professora nativaem São Paulo, mas fui mesmo assim, sem conhecer ninguém e falar apenas uma meia dúzia de palavras. Obviamente que o clima frio e a ausência de pessoas conhecidas foram um desafio.

Tendo chegado ao Studio Berçot ficou claro que eu não poderia concluir meu curso sem saber falar e escrever em francês, desta forma fui dar os primeiros passos nos pátios da Universidade Paris-Sorbonne. Aprendi a falar francês em quatro meses e em seis meses já escrevia bem, daí foi um pulo, a cidade estava ao meu alcance.

Meu MBA no Berçot eu fazia basicamente dentro do museu do Louvre estudando a Arte e a Moda em suas galerias, apoiado pelo curso de Língua, Civilização e Culturas Clássicas da Sorbonne. Foi um tempo maravilhoso, um sonho para mim que jamais ousara pensar esta aventura.

Certo dia apresentando trabalhos eu disse à diretora que queria trabalhar e ela de pronto me perguntou com quem eu gostaria, não hesitei, de pronto disse que queria trabalhar com John Galliano e para Dior. Foi assim, simples, ela pegou um caderno espiral bem surrado anotou um endereço e disse que eu comparecesse no dia seguinte que eles estariam me esperando. Foi assim que eu entrei na Dior pela porta da frente da Avenue Montaigne.

Na Dior eu conheci artistas de Hollywood, Catherine Deneuve, fiz roupas para Celine Dion, conheci princesas do Oriente Médio e todo tipo de coisas e pessoas inimagináveis.

AV – Ao lado do mundo fashion, você convive com outras paixões? Elas caminham em harmonia?

AC – Nunca acreditei que uma pessoa é uma coisa só, isto é uma limitação do nosso sistema que obriga os jovens a escolher uma carreira desde muito cedo e tudo fica parecendo muito definitivo na vida da pessoa, como se ela não fosse capaz de nada além daquele rótulo a que foi submetida. O mundo de uma pessoa tem tantas nuances quanto uma paleta de cores e eu sempre fui assim, sempre me interessou saber muitas coisas.

Sempre gostei de Arte, de Moda, de Filosofia e de ciências e depois a vida prepara a agente pra se virar conforme necessita. Eu sempre me virei (risos). Isto para mim sempre foi um diferencial de qualidade, é sempre melhor saber fazer muitas coisas, quanto mais, melhor. Para mim existem múltiplas conexões do conhecimento que são relacionadas, quem gosta de arte gosta de poesia, gosta de ler, talvez de escrever, gosta da arquitetura porque ela esta aí na cara da gente falando da beleza da vida, do universo e suas construções. É uma questão natural e óbvia esta multiplicidade de interesses.

Nós que trabalhamos e pensamos o efêmero, segundo alguns, trabalhamos com a terapia da alma, com aquele prazer subjetivo que está nas pessoas desde sempre. Somos estetas e qualquer situação de desequilíbrio nos incomoda porque somos sensíveis ao que não esta em equilíbrio. É assim, para mim, em relação às outras áreas do conhecimento.

AV – De um modo geral pensa-se que as pessoas que trabalham com moda sejam superficiais e desconectadas das questões sociais do seu entorno. Como você vê esta questão e de que forma você acredita que poderá contribuir com a causa de Amantes da Vida? 

AC – Como disse anteriormente, uma pessoa pode ter múltiplas capacidades. Muitas vezes apreciamos outros departamentos da vida. Eu sou este tipo de pessoa. O que ocorre de um modo geral é que se faz uma caricatura destes profissionais criando uma imagem que não corresponde à realidade. A indústria de moda no Brasil é um segmento econômico importante. Ela é responsável pela contratação de um número gigantesco de profissionais especializados, uma vez que as máquinas ainda não podem substituí-los. Cada vez mais a indústria têxtil enfrenta desafios em relação à globalização devido à competitividade. Aqui como em outras partes do mundo, esta indústria envolve desenvolvimento tecnológico, profissionalismo e competência de gestão, não é só uma perfumaria.

Em meu começo de formação eu achava que deveria escolher uma única direção e focar nesta escolha a minha vida. Logo ficou claro que não poderia ser assim, somente assim. Tanto isso é verdade que, além da minha graduação em Moda, eu estudei Historia, Ética e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Estas formações em humanidades associadas a uma inquietação constante me permitem fazer uma pequena contribuição para esta temática que eu considero tão importante.

AV – Considerando-se que no Brasil, chegar aos 60 anos de idade torna-se idoso da noite para o dia compulsoriamente, você acredita que por trás dos bastidores já exista uma movimentação em torno do novo consumidor que desponta com tudo no mercado de consumo?

AC – Olha, esta questão da terceira idade, melhor idade, maturidade, ainda é pouco avaliada no país. Para mim estes rótulos são desnecessários porque são em si uma manifestação do preconceito. Eu até acredito que o mercado para efeito da sua organização precise separar as pessoas em grupos e eu sempre fico mais confortável olhando por este aspecto mercadológico em vez de uma questão social.

No setor da moda, no Brasil, há uma lacuna de mão-de-obra no segmento da indústria têxtil porque o oficio da costura não é visto com dignidade pelos jovens que a consideram uma atividade menos nobre. Por outro lado as iniciativas de governo não contemplam este segmento o que faz com que todas as minhas colaboradoras de alta costura tenham todas mais de cinqüenta anos de idade. No meu atelier não há jovens na linha de montagem, só há senhoras.

Há muito tempo sabemos que o Brasil não será por mais tempo um país de jovens como nos anos 70. Obviamente que com o desenvolvimento da medicina, da qualidade de vida e da redução da natalidade, o percentual da população idosa só vai aumentar.

Nós somos um país que caminha em direção ao envelhecimento da sua população e torna-se uma obrigação em todos os setores da vida brasileira olhar para este evento natural. Os países do velho mundo já há muito tempo administram esta circunstância e se prepararam para isto. Aqui no Brasil nós ainda estamos um pouco desfocados da questão e ainda não soubemos olhar adequadamente para o assunto.

É evidente que seremos obrigados a rever os nossos pontos de vista sociais e econômicos, considerando este mercado consumidor crescente e que trás na esteira da sua bagagem uma série de desejos de consumo, de acessibilidade, de bem estar social. É imperativo estabelecer um novo olhar para a maturidade porque nós estamos vivendo um momento de transição, tudo parece confuso.

Os jovens já não são tão numerosos assim e por outro lado os maduros ainda são olhados com valores de referência que não correspondem mais à realidade dos nossos dias. Há certa resistência quanto à contratação do idoso que está nos dias de hoje plenamente qualificado para o exercício de inúmeras atividades. Nós estaremos fadados ao fracasso se não pararmos definitivamente para reavaliar o papel desta sociedade madura que encorpa mais e mais os números da demografia nacional.

 

Comentário 1

  • Isamaris Nobrega18/01/2014 em 07:26

    Tenho muito orgulho de fazer parte da história de vida deste profissional respeitado e querido. Adauto sempre foi assim: autêntico, amigo, humano e muito inteligente! Desejo a ele muito sucesso e felicidades!

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