A incrível dança rodopiante dos Dervixes

Dizer que ir à Turquia e não ver a dança dos dervixes é a mesma coisa que ir à Roma e não ver o Papa, é um pouco de exagero.
Mas realmente a rodopiante dança é uma das pérolas da cultura turca, tanto que foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Com origem no século XIII, não tivessem os seus adeptos decidido perpetuá-la através de espetáculos, certamente teria desaparecido como tantas outras manifestações culturais.
Graças a esta decisão, a cerimonia religiosa faz parte do roteiro turístico da Turquia.

Enquanto aguardam a apresentação do ritual, os espectadores já sentem o clima místico no ar, mas não calculam a observância da preparação que rola nos bastidores. Depois de vestidos com suas compridas túnicas brancas e seus chapéus que lembram um grande dedal, os dançarinos recebem a benção e a permissão para apresentarem em público o ritual chamado Sama, que é a oração em movimento.
A autoridade religiosa introduz um por um no espaço reservado para o ritual e mal pisam no solo, imediatamente dão início aos rodopios em torno de si mesmos.


Realmente, a concentração deles é tão grande que fica evidente tratar-se de uma cerimônia que leva ao transe. A partir da primeira rodada, começa a busca do encontro com o divino.
Os dervixes dançantes estão treinados para passar horas e horas girando para entrarem em um êxtase profundo até serem colocados bem perto do poder de Deus. Faz parte do ritual acreditar que o divino entra pela palma da mão direita apontada para cima, passa pelo corpo e sai pela palma da mão esquerda apontada para baixo, em direção à terra. A famosa dança é uma forma de polir o coração humano e permitir que a alma se libere para comungar com o divino.
Claro que existem técnicas, mas passam despercebidas diante do impactante movimento rotatório intermitente.
O que os espectadores em geral também desconhecem é que os que estão se apresentando, fazem parte da irmandade sufi, onde a austeridade e a extrema pobreza são condições essenciais para sua iniciação. Até chegarem ao exercício de seus rodopios, são mil e um dias de trabalhos árduos. No início, seguidos de infindáveis meditações para tomarem posse de si mesmos.

Terminada a apresentação, um por um, encaminha-se com a maior tranquilidade, e em total equilíbrio, para saudar o chefe religioso que a estas alturas já saiu do centro da roda e está posicionado no mesmo lugar do início.
Os mais respeitosos sentem que foram invadidos pela força divina exarada pelos dançarinos.
Os mais irreverentes saem impressionados com as mais de trezentas piruetas que cada um dá e ficam pensando que fossem eles, na vigésima segunda, já se sentiriam tão zonzos quanto o peru à véspera de Natal.
As “semas”, onde os dervixes se apresentam, são famosas em praticamente todos os cantos da Turquia. Em Istambul, o Centro Cultural Hocapasa é um dos mais conhecidos, mas qualquer concierge está apto a indicar o local onde a incrível visão da dança rodopiante ficará gravada para sempre.

Ana Boucinhas 

Adicionar comentário