A História se Repete

por Maria Eugenia Cerqueira

Já com o terceiro livro editado e publicado, cujo assunto gira em torno de limpeza doméstica, tive conhecimento de um fato, na história da minha família, que de certa forma justifica minha mania por arrumação e faxina.

Tudo bem que minha mãe era extremamente organizada e preciosista com sua casa, mas acho que a coisa vem ainda de antes…
Não cheguei a conviver com meus avós. Os paternos, morreram antes do meu nascimento. Dos maternos, somente meu avô teve contato comigo ainda assim por pouco tempo pois faleceu durante minha infância. A mãe e irmã de minha mãe não resistiram ao surto da Gripe Espanhola, que lhes ceifou as vidas, deixando-a órfã. Não as conheci, portanto.

Semana passada, conversando com uma prima, cuja avó era irmã da minha, sobre as origens de nossa família, soube de um fato bastante intrigante.

 


Minha avó nasceu numa aldeia na Galícia chamada Vilamartin de Valdeorras, um município da comarca de Valdeorras, na província de Orense. Além dela, Gerarda, havia mais duas irmãs: Maria de la Incarnación e Manuela. A mãe perdera o marido e, indo além, sofria de limitações de locomoção que a incapacitavam para prover o sustento da família. Ainda que pudesse, não havia chance de emprego – a aldeia era pequena, sem qualquer perspectiva de melhora. Logo a miséria e a fome tornaram-se a realidade daquelas mulheres.
Mas a coragem e disposição das galegas é lendária. Têm fama de guerreiras, qualidade herdada dos celtas e visigodos que em algum momento do passado dominaram a Galícia.
Aquela que mais tarde seria minha avó, despediu-se de Vilamartin, tomou um navio, não se sabe em companhia de quem, e aos quinze anos aportou no Brasil. Melhor uma esperança longínqua que a certeza da privação total. Sem qualquer formação acadêmica, o que à época era quase que a regra entre as mulheres, candidatou-se ao cargo de doméstica e arranjou emprego numa casa de família abastada. Mal completara quinze anos e já estava por conta própria, trabalhando. Limpava, faxinava, passava a ferro, ou seja, cuidava da arrumação e asseio da casa. Lá conheceu José, filho dos patrões, que acabou rendendo-se aos encantos daquela jovem espanhola, tomando-a como companheira. Da união, nasceram duas meninas. Dulce e Carmen. Gerarda, cuja saúde era frágil devido ao tempo de privações, não resistiu a uma pandemia de vírus influenza que se espalhou por grande parte do mundo, inclusive no Brasil, matando mais de cinquenta milhões de pessoas. A vida continuou para a segunda filha, que muito tempo depois, seria minha mãe.


Explicada está, geneticamente, minha mania de limpeza, organização e faxina – “quem sai aos seus não degenera”, diz o ditado popular. Fico imaginando que em algum lugar no astral, Gerarda deve divertir-se com meus escritos e experiências no campo da faxina e organização doméstica.
Puxei à vovó, que nem conheci!

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