A grande virada

Nós, os atuais coroas, definitivamente temos o dever de inventar o idoso do século XXI.

Afinal de contas, a geração baby boomer a que pertencemos, deve continuar a ser o porta-bandeiras dos que vêm atrás.

É óbvio que invenções espetaculares surgiram nas últimas décadas. Como é óbvio também que temos o direito de não sermos experts na maravilhosa era da informática.
Mas, também, para quem passou grande parte da vida entre dois botões – on e off -, estar aqui teclando é um tremendo de um salto.

Detesto voltar ao passado, mas foi na nossa época em que o novo jovem foi inventado.
Nossos pais pisavam nas pegadas dos nossos avós e mantinham-se na zona de conforto.

A partir da década de 60, demos uma virada no jogo comportamental.

Interessante o fato de terem sido as “meninas” as capitãs dos times das alterações.
Começamos o grito da independência na maneira de vestir.
Demos o fim na “espiada nos armários” das nossas mães e inventamos a moda à nossa maneira. É claro que tínhamos as nossas ‘ídalas “, das quais a Brigite Bardot era o expoente máximo… Vestidinhos xadrez, cheios de bordado inglês, duvido que alguma mãe usaria.
À época, de Londres vinham com alguns meses de atraso é claro, as grandes revoluções. Mary Quant resolve que as jovens tinham mais é que cortar as saias. Em dois tempos, as antenadas já desfilavam com seus joelhos à mostra.
Já que a proposta era diminuir pano, que se cortassem os maiôs e deixassem parte, digo, boa parte da barriga de fora.

Aqui um parêntese pessoal. Saia com meu ousado duas peças às escondidas do meu pai. Daria um trabalho danado fazê-lo entender o que nem eu mesma percebia – fugir dos padrões das minhas ancestrais.
Dos suaves boleros e tranquilos swings, resolvemos adotar o Elvis Presley como padrão. Era um tal de ser jogada para cima, passar por entre as pernas do parceiro que nos segurava pelas mãos… Os pais só olhavam assustados, mas nunca se dariam o direito de copiar a nós, os jovens.
Sem falar que ousamos invadir os bancos das salas de aula das faculdades com os meninos. Por aí vão tantas e tantas situações que inventamos, abrindo espaço para os jovens que viriam a seguir.

OK, chegamos vivos ao século XXI e cá estamos reformulando a clássica velhice.

Nós, os coroas de hoje, não perdemos um minuto para nos encantarmos com as bulas dos remédios lançados no mercado, por mera curiosidade. Tem um problema ? O médico que trate de pesquisar e nos informar qual o “up to date ” para o caso.

Nós descobrimos que solidão é sinônimo de liberdade. Viúvos e viúvas não se enclausuram mais. Curtem a falta do parceiro por um determinado tempo e depois abraçam o mundo da forma que bem entenderem.
Sacamos que o entusiasmo está longe de ser exclusividade de jovens. Mesmo que a torcida torça o nariz, temos o direito de vibrar com o que queremos e dane-se o mundo.
Não que assumamos com o maior prazer as drogas dos estragos físicos que o tempo fez com a gente…

Mas nos livramos da tirania da juventude que levava sobretudo as mulheres a se manterem aparentando pouca idade a qualquer preço. Que desapego bom !!!!!!
Nós decidimos que não tem a menor graça pendurar a chuteira. Temos tempo de monte pela frente e mil coisas para serem feitas.

Assim como abrimos o campo para as jovens, que hoje lotam as faculdades, que ocupam lugares de destaque no mundo empresarial, que entram e saem sozinhas de onde quiserem, estamos ceifando o terreno para que a enxurrada de coroas que vêm vindo, plantem o que lhes dê na telha.

Só não vale voltar atrás e esquecer que o mais importante na vida é viver sem ter a vergonha de ser feliz.

Ana Boucinhas

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